Polarização política e polarização afetiva: o que as mídias sociais têm a ver com isso

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Foto por Tracy Le Blanc em Pexels.com

A possibilidade de o ex-presidente Lula concorrer nas eleições de 2022, após a anulação das suas condenações pelo STF, reacendeu, no Brasil, a ideia de que caminhamos para uma polarização entre Lula e Bolsonaro. Quase que simultaneamente ao discurso do ex-presidente na semana passada, eleitores nas mídias sociais e alguns analistas passaram a caracterizar a polarização como uma disputa entre extremos políticos, sugerindo, dessa forma, a existência de uma simetria entre essas lideranças.

Essa primeira compreensão passou por um freio de arrumação dias depois, quando outros analistas procuraram esclarecer alguns pontos importantes, em especial, a falsa equivalência política dessas duas lideranças. Por outro lado, como bem observou Marcus André Melo, em artigo na Folha SP, há um equívoco nesse argumento da polarização porque dimensões que deveriam ser tratadas separadamente estavam justapostas. “O que, ou quem, está polarizado?”, questionou Melo. Além disso, acrescentou, polarização não deve ser confundida com a localização dos partidos ou candidatos no continuum ideológico.

Feita essa ressalva, que polarização, afinal, temos visto no Brasil e como isso pode ser interpretado a partir do uso intenso de mídias sociais?

O fenômeno da polarização afetiva

Parte da confusão sobre o que exatamente estamos chamando de polarização e suas características tem a ver com um fenômeno que a ciência política, sobretudo a americana, vem investigando há décadas: a polarização afetiva ou, como alguns autores preferem chamar, a polarização social. Esse fenômeno não se confundiria necessariamente com a chamada polarização política.

Em um estudo publicado em 2012, Shanto Iyengar, Gaurav Sood e Yphtach Lelkes identificaram um padrão no cenário americano que muito contribuiu para esse debate. A polarização política, que vem a ser como republicanos e democratas divergiam sobre temas políticos, ou mesmo a divisão ideológica entre liberais e conservadores, mantinha relativa estabilidade ao longo de mais de 35 anos. A polarização afetiva, por outro lado, apresentou forte variação. Eles notaram que, no mesmo período em que a polarização política se manteve estável, democratas e republicanos passaram a aceitar cada vez menos o grupo oponente, bem como recorriam cada vez mais a traços negativos para caracteriza-lo.

Ao contrário de polarização política, a polarização afetiva/social ocorreria quando eleitores utilizam recorrentemente sinais negativos para definir aqueles com os quais eles não se identificam socialmente (gostos, preferências, sexualidade, religião, raça, entre outros temas são utilizados nesse julgamento). Como vários estudos sugeriram, há ainda um forte componente emocional que contribui para esse comportamento, sobretudo quando os grupos se veem ameaçados ou em uma disputa de soma zero.

Uma visão negativa e cada vez mais acentuada daqueles que estão fora do “meu grupo” contribuiria, inversamente, para caracterizar mais fortemente aqueles com os quais eu me identifico e que estão dentro do “meu grupo” porque temos traços que consideramos positivos.

A polarização afetiva, desse modo, se constituiria na formação de grupos coesos internamente e que percebem aqueles que são diferentes das suas preferências como grupos socialmente distantes. Estereótipos, ênfase em traços que consideram negativos, violência verbal, entre outros requisitos são utilizados para acentuar diferenças sociais, como observa Liliana Mason (2018) em outro importante estudo sobre o assunto.

O uso das mídias sociais

A análise da polarização afetiva tem chamado atenção nos últimos anos por conta do ambiente de comunicação digital, sobretudo com o intenso uso das mídias sociais. Em um estudo que já se tornou referência nos EUA, Jaime Settle procurou observar como uma mídia social, no caso o Facebook, poderia ser uma plataforma importante para compreendermos o fenômeno da polarização afetiva.

“O Facebook, como um site de mídia social projetado para ajudar as pessoas a expressarem suas identidades, é especialmente propício como uma plataforma para as pessoas enviarem sinais tangíveis sobre suas ações e pensamentos relacionados às suas preferências” (Settle p.139, 2018)

No estudo de Settle, publicado em 2018, ela argumenta, a partir de uma série de testes estatísticas, que o conteúdo postado pelos usuários da mídia social, mesmo não sendo explicitamente conteúdo político, estimulava os demais seguidores a fazerem inferências políticas sobre os autores das postagens. Até mesmo o simples compartilhamento de uma notícia, a depender da marca do veículo que produziu a reportagem original, servia como um atalho para os seguidores inferirem se a pessoa era liberal ou conservadora.

O post sobre a ida a um restaurante, o comentário associado a um passeio num domingo de sol, as imagens compartilhadas, tudo isso tendia a ser utilizado para inferir diferenças afetivas/sociais. O mecanismo por traz disso era exatamente o acionamento de percepções, diferenças e similaridades a partir de uma noção de proximidade ou distância social/afetiva. Temos aí a condição por meio da qual o uso de mídia social, criada para que as pessoas se apresentem socialmente, pode contribuir para a polarização afetiva, ou seja, estruturando os grupos e reforçando identidades sociais e políticas.

“Os usuários do Facebook parecem prontamente dispostos a tirar conclusões sobre a identidade política de outro usuário, com base apenas em um único conteúdo que o usuário postou, na ausência de qualquer outra informação. Essa capacidade de reconhecer a identidade política é um primeiro passo crítico na ativação dos processos de interações entre grupos que levam a avaliações afetivamente polarizadas” (Settle p.148, 2018)

Com esses achados, a autora defende que, apesar de a maior parte dos usuários do Facebook admitir que não faz postagem com conteúdo político, uma publicação nessa mídia social não precisa ter conteúdo político explícito para ser politicamente relevante para os demais participantes da rede.

Embora Brasil e Estados Unidos apresentem características bastantes diversas, como por exemplo, um modelo bipartidário e outro multipartidário, os pontos levantados por Settle podem ser uma maneira interessante de melhor compreender como o uso de uma mídia social pode estar contribuindo para uma polarização afetiva que vem se acentuando por aqui desde 2014, e que tem limitado a construção de pontes entre lideranças políticas que sem veem, não podemos esquecer disso, cada vez mais alinhadas ao que sua militância digital espera e deseja para o seu grupo e para o grupo com o qual não se identifica.

Em outro post, vou discutir a polarização afetiva no contexto eleitoral no Brasil.

Referências

Mason, Lilliana. 2018. Uncivil Agreement: How Politics Became Our Identity. Chicago and London: The University of Chicagp Press.

Settle, Jaime E. 2018. “Political Inference from Content on the News Feed”. In Frenemies: How Social Media Polarizes America, Cambridge University Press, 136–60.

Settle, Jaime E. 2018. “A Fundamental Change in Political Communication”. In Frenemies: How Social Media Polarizes America, Cambridge University Press, 1–19.

Iyengar, Shanto, Gaurav Sood, e Yphtach Lelkes. 2012. “Affect, not ideology: A social identity perspective on polarization”. Public Opinion Quarterly 76(3): 405–31.

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