O uso de mídia social favorece mesmo a formação de bolhas ideológicas?

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A hipótese de que o uso de mídias sociais favorece a formação de bolhas ideológicas se disseminou de tal maneira que hoje pode parecer um contra-censo discutir se essa afirmação é mesmo válida. De fato, não é difícil encontrar grupos que compartilham informações e opiniões semelhantes no Twitter, Facebook ou até mesmo, e talvez de forma mais consistente, no WhatsApp. Olhar só para os grupos, no entanto, não esclarece, por exemplo, se os seus membros têm hábitos de consumo de informação semelhantes ou se as redes que eles seguem podem levá-los a receber informações diferentes das suas crenças políticas.

Uma pesquisa produzida por cinco pesquisadores das universidades de Nova York de Princeton, ambas nos Estados Unidos, e publicada no ano passado, apresentou evidências que colocam em dúvida a hipótese da formação de bolhas ideológicas por conta do uso das mídias sociais.

How many people live in political bubbles on social media? Evidence from linked survey and Twitter data” identificou que 53% dos americanos não seguiam qualquer político no Twitter. Além disso, 40% não seguiam contas de veículos de comunicação e, entre aqueles que tinham esse hábito, cerca de 51% apresentavam uma sobreposição de contas de espectros ideológicos distintos. Em tese, portanto, estavam recebendo informações que contrariavam suas posições ideológicas.

O estudo, que detalho a seguir, mostra que os americanos conservadores seguiam mais contas de veículos de comunicação identificados como liberais e de políticos desse campo ideológico do que os cidadãos liberais seguiam contas de mídia ou políticos conservadores. Embora não tenha sido analisado pelos autores, o fato de um usuário, especialmente o mais engajado, seguir contas diferentes da sua posição ideológica pode levar também a um efeito contra-intuitivo, ou seja, o de fortalecer a sua posição política original. Mas isso é assunto para uma outra conversa.

Mais de 1 bilhão de tuítes

Para realizar o estudo, os cinco pesquisadores aplicaram inicialmente um survey nacional e representativo durante as eleições americanas de 2016, com cidadãos que tinham conta no Twitter. A ideia era saber dos entrevistados a posição ideológica que eles se identificavam, além de hábitos de consumo de informação. A partir daí, os pesquisadores mapearam as 642 mil contas no Twitter seguidas pelos entrevistados, e os mais de 1,2 bilhão de posts publicados por essas contas.

Como já mencionado, a primeira constatação foi que 40% dos usuários do Twitter não seguiam nenhuma conta de veículos de comunicação. Por outro lado, 53% não seguiam nenhum político no microblog. O estudo identificou ainda que, entre todos os respondentes, 18% seguiam 11 ou mais contas de veículos de informação, enquanto 7% seguiam 11 ou mais contas de políticos. Entre os cidadãos mais liberais, 31% não seguiam contas de mídia e 21% seguiam mais de 11 contas de mídia. Entre os mais conservadores, 40% não seguiam nenhuma veículo de informação, enquanto 20% seguiam mais de 11 contas.

Pelo estudo, aqueles cidadãos que estavam nos extremos ideológicos seguiam, em média, mais contas de políticos e de veículos de comunicação do que aqueles americanos considerados mais moderados. Ou seja, os extremos ideológicos eram mais engajados no volume de contas seguidas do que os moderados.

Liberais e conservadores

A primeira hipótese testada no estudo foi a seguinte. Se aqueles entrevistados que se identificavam como liberais seguiam apenas contas de veículos considerados liberais, ou se aqueles que se identificavam como conservadores seguiam apenas contas de veículos conservadores, então era possível deduzir que eles viviam em bolhas ideológicas. Os resultados indicaram que os cidadãos que se identificavam como liberais seguiam mais contas de veículos liberais do que os conservadores, que tendiam a seguir contas de veículos mais ao centro e/ou mais conservadores.

A figura mostra a distribuição ideológica das contas dos veículos de comunicação seguidos pelos respondentes da pesquisa, considerando a frequência com que as contas no Twitter são seguidas. Fonte: Gregory Eady, Jonathan Nagler, Andy Guess, Jan Zilinsky e Joshua A. Tucker

Esse diferença de comportamento ficou mais clara quando foram analisadas as contas de políticos que liberais e conservadores seguiam no Twitter. Liberais tendiam a seguir mais políticos liberais, e conservadores seguiam mais políticos conservadores. Segundo os autores, esses resultados indicaram que havia menos polarização entre liberais e conservadores quando consideramos as contas de veículos de informação que eles seguiam do que as contas de políticos que eles acompanhavam.

A figura mostra a distribuição ideológica das contas dos políticos seguidos pelos respondentes da pesquisa, considerando a frequência com que as contas no Twitter são seguidas. Fonte: Gregory Eady, Jonathan Nagler, Andy Guess, Jan Zilinsky e Joshua A. Tucker

Grupos mais alinhados

A análise individual entre aqueles que seguiam pelo menos uma conta de veículo de comunicação mostrou que os cidadãos dos extremos ideológicos apresentavam o seguinte comportamento: 78% dos mais liberais seguiam contas consideradas mais liberais, 16% seguiam também contas de veículos mais conservadores. Por outro lado, entre aqueles considerados mais conservadores, 68% seguiam contas de veículos mais conservadores, e 22% seguiam contas de veículos mais liberais.

Com relação às contas de políticos, os pesquisadores encontraram uma proporção menor. Apenas 16% e 8% de liberais e conservadores seguiam contas de líderes do espectro político oposto, indicando, dessa forma, um alinhamento mais consistente entre ideologia do usuário e a conta do político que ele seguia.

Os tuítes no feed dos usuários

Embora a escolha de quem seguir seja uma pista importante, os pesquisadores analisaram também o que os usuários do Twitter recebiam no feed do microblog, resultado das publicações de outros seguidores. Os dados demostraram que, entre os cidadãos considerados mais liberais, 84% receberam posts de veículos mais liberais, no entanto, 27% receberam também posts de veículos mais conservadores. Entre os conservadores, 68% receberam posts de veículos mais conservadores, enquanto 43% receberam posts de veículos mais liberais.

O conteúdo que circula nos feeds dos usuários do Twitter também sofre mudanças quando consideramos as contas de políticos. Entre os cidadãos mais liberais, 84% dos posts que eles receberam vieram de políticos mais liberais, por outro lado, 50% receberam também posts de políticos conservadores. Entre os cidadãos mais conservadores, 88% receberam posts de políticos mais conservadores, mas 38% receberam posts de políticos mais liberais.

Informações de veículos offline

A pesquisa perguntou também quais veículos os entrevistados costumavam acompanhar fora das redes. Os resultados indicaram que, entre os 78% dos conservadores que não seguiam contas no Twitter de veículos liberais, 14% assistiam canais de TV considerados liberais. Vamos lembrar que, do total de cidadãos mais conservadores, 22% já seguiam contas de veículos mais liberais no Twitter. Entre os liberais, a pesquisa indicou que, do grupo de 84% que não seguiam contas no Twitter de veículos conservadores, 7% afirmaram assistir a Fox News, considerada uma TV conservadora. Entre os entrevistados conservadores do extremo ideológico (44%), cerca de 46% desse grupo assistiam canais de televisão considerados liberais.

Similaridade ideológica

Se as contas que seguem ou os conteúdos que duas pessoas recebem no Twitter são ideologicamente similares, então é esperada uma grande sobreposição entre as contas e tuítes recebidos por essas duas pessoas. Se não houver muita similaridade, a tendência é haver baixa sobreposição. Numa escala que vai de 0 (baixa sobreposição ideológica) e 1 (alta sobreposição ideológica), o estudo identificou que, no grupo dos cidadãos considerados mais liberais, a sobreposição das contas seguidas ficou acima de 0,7, enquanto entre os conservadores abaixo de 0,6. Entre os tuítes que eles receberam, houve sobreposição de pouco mais de 0,4 entre os conservadores, e acima de 0,6 entre os mais liberais.

“Em outras palavras, se pegássemos aleatoriamente um cidadão liberal e um cidadão conservador, pouco mais da metade das contas que eles seguissem teriam a mesma distribuição ideológica. Isso não seria muito menor do que a distribuição das contas seguidas por dois conservadores escolhidos aleatoriamente, quando 57% das contas seguidas por eles seriam ideologicamente congruentes”, diz o estudo, em uma tradução livre.

Média da sobreposição por pares de usuários considerando a distribuição ideológica Fonte: Gregory Eady, Jonathan Nagler, Andy Guess, Jan Zilinsky e Joshua A. Tucker

Os pesquisadores sortearam aleatoriamente 15 pares de cidadãos entre os níveis de auto-identificação ideológica. Os resultados mostraram uma sobreposição de 0,51 entre as contas seguidas por um cidadão mais liberal e um cidadão mais conservador, e 0,44 entre os tuítes que eles receberam. Ou seja, em tese, o esperado era uma sobreposição próxima de 0, numa situação de bolhas ideológicas consistentes. “Em suma, mesmo nas comparações entre os usuários nos extremos ideológicos, há uma sobreposição substancial na distribuição ideológica das contas seguidas por eles e dos posts que eles recebem dessas contas”, diz os pesquisadores.

Laços fracos

Como as mídias sociais favorecem relações baseadas em laços sociais fracos em contraposição aos laços sociais fortes (presenciais), o estudo analisou até que ponto os retuítes que os usuários receberam vieram de um conjunto de contas ideologicamente mais diversificadas ou moderadas, quando comparadas com os tuítes que os usuários receberam das contas que eles seguem diretamente.

Os resultados indicaram que os retuítes recebidos pelos usuários vieram mais de contas consideradas moderadas do que as contas que os usuários seguiam diretamente. Embora os retuítes não tenham ampliado significativamente a diversidade ideológica das contas seguidas pelos usuários, foi observada a seguinte diferença. Os conservadores foram apresentados a retuítes liberais, da mesma forma que os liberais puderam ver mais tuítes conservadores do que eles esperavam receber.

Como conclusão o estudo afirma que não foram encontradas evidências fortes que ajudem a sustentar a formação das câmaras de ecos, ou seja, agrupamentos nos quais as fontes de informação dos usuários fossem mutuamente exclusivas e entre polos ideológicos opostos. Houve, na verdade, diz os pesquisadores, mais sobreposição do que divergência ideológica nas contas de veículos de mídia seguidas pelos usuários liberais e conservadores no Twitter.

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