Qual a diferença entre desinformation, misinformation e mal-information?

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Talvez não exista hoje termo mais popular do que “fake news”. De tão famoso, ele tem sido usado inclusive como argumento de defesa. Seja nos debates políticos, nas mídias sociais ou em encontros presenciais, qualquer divergência sobre a veracidade de um evento, fato ou acontecimento imediatamente classificamos como fake news.

A popularidade do termo cresceu após a eleição do presidente americano, Donald Trump, em 2016. Acusado de difundir notícias falsas durante sua campanha eleitoral, Trump inverteu o jogo e, durante o seu mandato, passou a classificar como fake news informações da imprensa ou das mídias sociais que sejam contrárias aos seus interesses. O presidente americano, é bom ressaltar, continua sendo um dos maiores disseminadores de informações falsas nas mídias sociais.

Debate acadêmico sobre fake news

Produto de disputa política, a definição de fake news tem gerado um profundo debate no mundo acadêmico. Parte considera o termo impreciso para designar uma variedade muito grande de informações falsas disseminadas no ambiente digital. Outro grupo, porém, mantém o uso de fake news por considerar que ele se refere a um tipo muito específico de informação deliberadamente falsa e criada para prejudicar adversários políticos, empresas ou países.

Numa ampla e mais atual revisão dos usos e definições de fake news, Tatiana Dourado (UFBA) apresentou este ano, na sua tese de doutorado, pistas importantes que ajudam a compreender melhor o fenômeno e suas variantes.

Entre as pesquisas que consideram vago e pouco útil o termo fake news, há, por exemplo, aqueles para quem o ambiente digital tem ajudado a promover uma situação de desordem informativa. Nesse contexto, a veracidade da informação e a intenção dos seus autores ao produzir ou espalhar conteúdos teriam um papel fundamental para entendermos o fenômeno.

Nesse modelo, haveria diferenças, por exemplo, entre misinformation (informação falsa), desinformation (desinformação) e mal-information (desinformação maliciosa).

Fonte: Tatiana Dourado (2020) a partir de Wardle e Derakshan, 2017)

Com base no estudo de Wardle e Derakshan (2017), Dourado apresenta a seguinte síntese dos termos:

1) Desinformation (desinformação): informações falsas, criadas deliberadamente para prejudicar uma pessoa, grupo social, organização ou país.

2) Misinformation (ou informação errada): informações falsas, mas que não foram criadas com a intenção de causar prejuízo;

3) Mal-Information (ou informação maliciosa): informação que é baseada na realidade, usada para impor prejuízos a uma pessoa, organização ou país.

Em outro post, tratei de um estudo que mapeou pesquisas acadêmicas publicadas entre 2003 e 2017 e que utilizaram o termo fake news. O levantamento indicou a existência de seis tipos de fake news, considerando o nível de facticidade do conteúdo e a intenção deliberada de enganar.

Como podemos ver na imagem acima, a definição pode ser bastante imprecisa, porque muitas vezes precisa lidar com a questão da intenção do autor, o grau de facticidade do conteúdo e os diversos tipos de informação que circulam na rede.

As bases de uma fake news

Embora reconheça a importância dos três termos (desinformação, informação errada e informação maliciosa), Dourado defende o uso de fake news que, para ela, seria mais preciso quando estamos analisando a guerra política no ambiente digital.

“Fake news são um tipo específico de informação inverídica apresentado como histórias presumidamente factuais, porém comprovadamente falsas, produzidas com a intenção de serem distribuídas como notícias de última hora nos ambientes digitais” (p. 58)

Como é possível observar, fake news estaria mais próximo do termo desinformação. Apesar disso, Dourado argumenta que fake news têm alguns elementos que ajudam a distinguir mais claramente esse tipo de informação falsa.

A primeira delas é a deliberada intenção de imitar notícia jornalística. “Salienta-se, com isso, que o simulacro noticioso não resulta apenas da roupagem de artigo ou reportagem jornalística, mas também da reivindicação dos fatos aos quais abordam. Tais relatos, portanto, são pretensamente factuais, e não fantasiosos ou intencionalmente ficcionais. No cerne da noção de notícias, portanto, está a base factual” (p.54).

Portanto, “mesmo em fake news em formato de áudio, por exemplo, é possível encontrar elementos textuais, como o uso do termo “urgente”, “exclusivo” ou o próprio pedido “compartilhe em seus grupos de WhatsApp”, o que se assemelha às notícias de última hora, mesmo o presumido fato sendo narrado por suposta testemunha ocular (p.55)

Nesse perspectiva, Tatiana Dourado argumenta que fake news não deve ser “confundidas com comentários, opiniões, obras claramente de ficção, memes e sátiras políticas baseadas em mentiras, intolerância, sectarismo e teorias da conspiração, por exemplo”. Isso porque, “no cerne dessas peças, evidencia-se a base factual e o aspecto noticioso. Assim, configura-se que o componente ‘falsidade’ presente nas fake news pode ser objetivamente comprovado por meio de rotinas de verificação de fatos realizadas seja por jornalistas seja por indivíduos (p.57)

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