Oito características do discurso fascista

Publicado por

Nas últimas semanas, o termo “fascismo” tem aparecido com mais frequência nas mídias sociais, em manifestações públicas pelo Brasil e em críticas de lideranças políticas. A palavra vem vendo usada principalmente para caracterizar ações ou discursos do presidente Jair Bolsonaro ou de seus auxiliares. Inicialmente, parece soar estranho o uso hoje de um conceito aplicado para designar governos de um período muito específico da história, que se desenrolou entre 1919 e 1945, e que terminou com o chamado Fascismo italiano ou o nacional-socialismo alemão.

Em linhas gerais, existem ao menos três usos e significados para o termo fascismo. O primeiro está associado ao núcleo original do Fascismo italiano, considerando suas características históricas. O segundo é associado à dimensão internacional que o fascismo alcançou, com a consolidação do nacional-socialismo na Alemanha, suas características ideológicas, critérios organizativos e finalidades políticas. O terceiro uso do conceito “estende o termo a todos os movimentos ou regimes que compartilham com aquele que foi definido como fascismo histórico, de um certo núcleo de características ideológicas e/ou critérios de organização e/ou finalidades políticas” (Bobbio et al 1998)

É nessa última perspectiva, mais flexível e com contornos menos definidos, que o filósofo Jason Stanley discute em seu livro “Como funciona o fascismo”, lançado em 2018 nos Estados Unidos, as características do discurso político contemporâneo de natureza fascista.

Stanley, que é professor da Universidade Yale, mapeia a “política fascista, sobretudo as táticas como mecanismo para alcançar o poder”. É importante observar, portanto, que o uso de uma tática fascista não corresponderia necessariamente à instalação de um estado fascista, como o próprio autor ressalta.

Das 10 táticas mapeadas por Stanley, listei abaixo alguns fragmentos de 8 delas que considero as mais significativas para entender por que o termo fascismo passou a ser tão usado recentemente para caracterizar líderes com essa inclinação política: 1) o passado mítico; 2) propaganda; 3) anti-intelectualismo; 4) irrealidade; 5) hierarquia; 6) vitimização; 7) lei e ordem; 8) ansiedade sexual; 9) apelos à noção de pátria e 10) desarticulação da união e do bem-estar público.

As táticas de natureza fascista

1) O passado mítico: “A política fascista invoca um passado mítico puro que foi tragicamente destruído. Dependendo de como a nação é definida, o passado mítico pode ser religiosamente puro, racialmente puro, culturalmente puro ou todos os itens acima” (p. 19). Em outro trecho Stanley observa que, “na retórica de nacionalistas extremos, esse passado glorioso foi perdido pela humilhação provocada pelo globalismo, pelo cosmopolitismo liberal e pelo respeito por ‘valores universais’ como a igualdade” (p. 20)

2) Propaganda: “O papel da propaganda política é ocultar os objetivos claramente problemáticos de políticos ou de movimentos políticos, mascarando-os com ideias amplamente aceitas” (p.37). Nesse tópico, Stanley concentra-se em observar como o discurso político de líderes fascistas contra, por exemplo, atos de corrupção permite ocultar envolvimento com a corrupção ou ainda justificar ataques ao Estado de direito.

“Os Estados fascistas concentram-se em desarticular o Estado de direito, com objetivo de substituí-lo pelos ditames de governantes individuais ou chefe de partido. É padrão da política fascista que as duras críticas a um poder judiciário independente ocorram na forma de acusações de parcialidade, um tipo de corrupção, e críticas que então são usadas para substituir juízes independentes por aqueles que empregarão cinicamente a lei como um meio de proteger os interesses do partido do poder (…) Em nome de erradicar a corrupção e a suposta parcialidade, os políticos fascistas atacam e diminuem as instituições que, de outro modo, poderiam cercear seu poder (p.40-41)

3) Anti-intelectualismo: “A política fascista procura minar o discurso público atacando e desvalorizando a educação, a especialização e a linguagem. É impossível haver um debate inteligente sem uma educação que dê acesso a diferentes perspectivas, sem respeito pela especialização quando se esgota o próprio conhecimento e sem uma linguagem rica o suficiente para descrever com precisão a realidade”.

“Quando a educação, a especialização e as distinções linguísticas são solapadas, restam apenas o poder e identidade tribal (…) Isso não significa que não haja um papel para as universidades na política fascista. Na ideologia fascista, há apenas um ponto de vista legítimo: o da nação dominante (…) A educação, portanto, representa uma grave ameaça ao fascismo ou se torna um pilar de apoio para a nação mítica” (p.48)

4) Irrealidade: “A política fascista substitui o debate fundamentado por medo e raiva. Quando é bem sucedida, seu público fica com uma sensação de perda e desestabilização, um poço de desconfiança e raiva contra aqueles que, segundo foi dito, são responsáveis por essa perda (…) A política fascista troca a realidade pelos pronunciamentos de um único indivíduo, ou talvez de um partido político. Mentiras óbvias e repetidas fazem parte do processo pelo qual a política fascista destrói o espaço da informação” (p. 66).

“Os políticos fascistas desacreditam a ‘mídia liberal’ por censurar a discussão de teorias da conspiração de direita extravagantes, o que sugere um comportamento mentiroso encoberto pelo verniz das instituições democráticas liberais” (p.71)

5) Hierarquia: “De acordo com a ideologia fascista, em contrapartida [à cidadania liberal], a natureza impõe hierarquias de poder e dominância que contratiram categoricamente a igualdade de respeito pressuposta pela teoria democrática liberal. (p. 85)

“Para o fascista, o princípio da igualdade é uma negação da lei natural, que estabelece certas tradições, das mais poderosas, sobre as outras. A lei natural supostamente coloca homens acima das mulheres, e membros da nação escolhida do fascista acima de outros grupos” (p.86)

6) Vitimização: “A exploração do sentimento de vitimização de grupos dominantes frente à perspectiva de ter que dividir a cidadania e poder com grupos minoritários é um elemento universal da política fascista internacional contemporânea” (p.99)

“O nacionalismo está no cerne do fascismo. O líder fascista emprega um sentimento de vitimização coletiva para criar a noção de identidade de grupo que é, por sua natureza, oposto ao ethos cosmopolita e ao individualismo de democracia liberal. A identidade de grupo pode se basear em diversos elementos – na cor da pele, na religião, na tradição, na origem étnica. Mas é sempre contrastado com um ‘outro’, contra o qual a nação se define” (p. 109).

7) Lei e Ordem: “Um estado democrático saudável é governado por leis que tratam todos os cidadãos de forma igual e justa, apoiados por laços de respeito mútuo entre as pessoas, incluindo aqueles encarregados de policiá-los. A retórica fascista de lei e ordem é explicitamente destinada a dividir cidadãos em duas classes: aqueles que fazem parte da nação escolhida, que são seguidores de leis por natureza, e aqueles que não fazem parte da nação escolhida, que são inerentemente sem lei” (p. 112)

8) Ansiedade sexual: “Como a política fascista tem, na sua base, a tradicional família patriarcal, ela é naturalmente acompanhada de pânico sobre os desvios dessa família patriarcal. Transgêneros e homossexuais são usados para aumentar a ansiedade e o pânico sobre a ameaça aos papéis masculinos tradicionais” (p. 127)

Referências

BOBBIO, Norberto, MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco
Pasquino. Dicionário da Política, 1998, vol 1. Universidade de Brasília, Brasília.

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo. 2019. 3 edição, L&PM, Porto Alegre.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s