Como a desatenção favorece a disseminação de fake news sobre a Covid

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Mídias sociais e aplicativos de trocas de mensagens, como o WhatsApp, apresentam duas características que estimulam a produção e o compartilhamento em massa de conteúdo. A primeira delas, a chamada busca por “aprovação social”, ou o desejo de sermos aceitos pelo nosso grupo, aparece no volume de cliques, curtidas e reações positivas. A segunda característica é o dinamismo das trocas, fruto da presença dos aplicativos nos celulares e da facilidade com que, em poucos cliques, o seu grupo tenha conhecimento do que você pensa ou que você tem feito.

Um modelo de comunicação centrado na aprovação social e nas facilidades da tecnologia pode ser um campo fértil para o compartilhamento com baixa reflexão. Ou seja, mais intuitivo, com pouco tempo para pensar sobre o conteúdo que estamos compartilhando. Imagine esse modelo diante de uma pandemia de uma doença ainda pouco conhecida e em um ambiente infestado por notícias falsas?

Uma versão preliminar de uma pesquisa feita por cinco pesquisadores de universidades americanas traz algumas evidências de como uma publicação sem muito tempo para refletir sobre o conteúdo facilita a disseminação de notícias falsas sobre a Covid-19. O pesquisadores fizeram um experimento em que os voluntários eram estimulados a pensar um pouco mais sobre a veracidade de uma informação, isto é, se um post parecia falso ou verdadeiro. O resultado mostrou que o estímulo reduziu a probabilidade de compartilhar o post falso nas redes sociais.

Estudo não representativo e ainda preliminar

“Fighting COVID-19 misinformation on social media: Experimental evidence for a scalable accuracy nudge intervention” foi disponibilizada ontem na plataforma PsyArXiv, que arquiva pré-prints de pesquisas do campo psicologia. O experimento foi realizado em março, com 853 participantes escolhidos pela internet e que eram usuários de mídias sociais. A média de idade foi de 46 anos, e o grupo era formado por 57% de mulheres, e 43% de homens, todos americanos. Embora tenha controlado a distribuição da amostra, ela não pode ser considerada representativa para a população americana, o que cria algumas limitações sobre a inferência dos seus resultados. Apesar disso, os pesquisadores chegaram a conclusões bem interessantes.

Para realizar o experimento, eles dividiram os participantes aleatoriamente em dois grupos. Depois eles foram submetidos a uma bateria de perguntas sobre habilidades psicológicas e decisões que tomariam quando foram expostos a notícias falsas e verdadeiras. Na primeira rodada de testes, os pesquisadores concluíram que há uma associação significativa entre a qualidade do julgamento de uma notícia, isto é, se ela parecia verdadeira, e a vontade de compartilhar.

Segundo o estudo, em uma situação em que o post sobre a Covid era falso, 32,4% das pessoas estavam mais dispostas a compartilhar a informação quando comparadas com aquelas que classificaram corretamente o post como inverídico.

Relação entre avaliação dos posts e vontade de compartilhar

Fonte: Gordon Pennycook at al (2020) Percentual de respostas “sim” para a veracidade do título dos posts falsos e verdeiros e a condição: acurácia (pelo seu conhecimento, o título desse post parece verdadeiro?) e compartilhamento (você consideraria compartilhar esse post no Facebook ou Twitter?).

“Indivíduos com maior probabilidade de confiar em suas intuições e
os que tinham menos conhecimento científico básico eram piores em discernir entre o conteúdo verdadeiro ou falso de uma mensagem”, diz o estudo uma tradução livre.

A importância de saber avaliar a veracidade das mensagens

O segundo grupo da pesquisa, o chamado grupo de tratamento, foi submetido inicialmente a um pequeno estímulo, criado a partir de uma questão que, segundo os pesquisadores, ajudava os participantes a refletirem sobre a informação. A pergunta consistiu em pedir que eles avaliassem a veracidade de até um dos quatro títulos dos posts considerados neutros politicamente, e sem relação com a Covid-19. Nesse caso, a pergunta teve a função de estimular o pensamento crítico sobre as informações dos demais posts (falsos e verdadeiros) que eles passariam a receber na sequência sobre a Covid.

Os resultados mostram haver indícios de uma relação entre uma melhor avaliação dos posts sobre a Covid-19 e a vontade de compartilhar. Isto é, com a pergunta-estímulo os participantes ficaram mais atentos aos conteúdos e se sentiram mais inclinados a disseminar conteúdos verdadeiros.

Os dois grupos do experimento e a vontade compartilhar

Como conclusão, os autores afirmam que os resultados sugerem que aspectos relativos às redes sociais parecem gerar um desestímulo à atenção, isto é, a uma maior preocupação com a avaliação correta dos conteúdos que compartilham. Por exemplo, “as plataformas de mídia sociais fornecem um feedback imediato e que pode ser verificado pelo número de aprovação que uma pessoa recebe, como as curtidas”. Desse modo, tudo indica que a atenção sobre a veracidade da informação seja, na verdade, substituída pela preocupação em obter aprovação ou reforço social. Uma troca que, como sabemos, tende a estimular a disseminação de conteúdos avaliados sem muito cuidado.

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