Você sabe como o zíper funciona? Ou por que superestimamos nosso conhecimento?

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Texto publicado originalmente no VirtuNews

Numa escala de 0 a 7, quanto você sabe do funcionamento de um zíper de uma calça jeans? É muito provável que a sua resposta na escala fique entre 5 e 7, ou seja, médio e alto conhecimento, afinal de contas, quem não sabe como um simples zíper funciona? Pois bem, e se fosse solicitado, na sequência, a detalhar como funciona o mecanismo de encaixe e desencaixe de cada uma das unidades do zíper? É quase certo que você enfrentaria alguma ou muita dificuldade.

Perguntas aparentemente simples como essas podem revelar muito de uma característica humana bastante conhecida no campo da ciência cognitiva. Somos uma espécie com grande habilidade de superdimensionar o nosso próprio conhecimento sobre o mundo. O reverso da moeda é que tendemos a menosprezar os impactos de nossa ignorância.

O pensar rápido e o pensar lento

livroEssas duas características fazem parte das conclusões de estudos realizados por dois pesquisadores do campo da ciência cognitiva, Steven Sloman e Philip Fernbach, que lançaram recentemente o livro “The Knowledge Illusion: Why We Never Think Alone” — em tradução livre “A Ilusão do Conhecimento: por que nunca pensamentos sozinhos”. Assim como uma série de outras pesquisas já demonstram, o mecanismo que faz muitas pessoas superestimarem o conhecimento sobre o mundo está associado a dois modelos de raciocínio, identificados ainda nos anos 70 e 80 por Amos Tversky e Daniel Kahneman, ganhador do Nobel em Economia, no livro “Rápido e devagar, duas formas de pensar”, publicado no Brasil em 2011.

O primeiro sistema é intuitivo e rápido, e o segundo, classificado como deliberativo e lento. Enquanto o primeiro, com baixo custo, apresenta respostas rápidas para qualquer situação nova, o segundo exige do indivíduo uma maior capacidade de associar informações, analisar e decidir corretamente. O problema, segundo Sloman e Fernbach, é que o modelo deliberativo tem alto custo cognitivo, além de esbarrar na nossa limitada capacidade de armazenar informação. Temos aí as condições para o fenômeno que eles chamam de “ilusão do conhecimento”: achamos que conhecemos mais sobre o mundo à nossa volta do que de fato conhecemos porque na maioria das vezes é o sistema intuitivo que está em funcionamento. Somos muito mais ignorantes do que imaginamos.

(…) a ilusão de conhecimento ocorre porque vivemos em uma comunidade de conhecimento e deixamos de distinguir o conhecimento que está em nossas cabeças do conhecimento fora dela. Achamos que o conhecimento que temos sobre como as coisas funcionam fica dentro das nossas cabeças, quando, na verdade, retiramos muito desse conhecimento do ambiente em que vivemos e das outras pessoas com quem interagimos (…)” | Sloman e Fernbach

A ilusão do conhecimento em tempos de alta conectividade

Em tempos de alta conectividade e uso intenso de redes sociais, a ilusão do conhecimento tem se espalhado como nunca. Ao trocar impressões sobre o mundo, as comunidades e grupos das redes amplificam e legitimam um conhecimento que é, muitas vezes ilusório, sem muito tempo para a deliberação e associação correta das informações. Nós achamos que o baixo conhecimento que temos sobre o mundo lá fora está correto porque muitos estão pensando como a gente. Há uma tendência, portanto, de reforçar as atitudes pré-existentes, mesmo que baseadas em informações incorretas, do que a correção ou mudanças dessas atitudes.

“(…) É assim que uma comunidade de conhecimento pode se tornar perigosa: as pessoas com quem conversamos são influenciadas por nós, e verdade seja dita, somos influenciados por elas também. Quando os membros do grupo não sabem muito, mas compartilham de uma posição, os membros do grupo podem reforçar o senso de compreensão dos outros, levando todos a sentirem que são verdadeiros especialistas e vivem uma situação de apoio mútuo (…)” | Sloman e Fernabach

O desafio para os governos

A velocidade dessas conexões têm criado, por outro lado, um enorme desafio para governos em várias democracias pelo mundo. Como promover políticas públicas, muitas vezes complexas, e que precisam ganhar a apoio da sociedade para serem aprovadas e implementadas? Como, por exemplo, explicar para a sociedade uma complexa Reforma Tributária? Para Sloman e Fernbach, a única forma seria estimular o pensamento deliberativo, de forma a ajudar as pessoas a repensarem suas posições e atitudes baseadas no reconhecimento de que temos pouco conhecimento sobre diversos assunto.

Um outro estudo publicado recentemente chama atenção para essa dificuldade dos governos contemporâneos, em que os cidadãos estão conectados e recebem diariamente um grande volume de informações. Nesse ambiente digital, a comunicação baseada em emoções e sentimentos tende a prevalecer, deixando pouco espaço para o sistema de deliberação, que exige esforço de raciocínio.

Em seu mais recente livro, “Nervous States: How Feeling Took Over the World”, em tradução livre “Estados nervosos: Como o sentir tomou conta do mundo, o cientista político William Davies, da Universidade de Londres, explica como a política tem lidado com a questão da razão e dos sentimentos ao longo da história. A história da razão e a sua influência na relação entre o poder público e a sociedade estaria hoje em crise. Para ele, a realidade atual é a de que as democracias estão sendo transformadas pelo poder dos sentimentos.

Na avaliação de Davies, os argumentos baseados em fatos e na racionalidade científica têm perdido espaço, ampliando as possibilidades de que cidadãos acreditem nos chamados “fatos alternativos”, expressão usada pela Casa Branca para se contrapor às reportagens críticas ao Governo americano. Em entrevista à revista britânica The Economist, Davies defendeu a necessidade de os governos levarem em conta os sentimentos dos cidadãos, se quiserem convencê-los da importância de alguma política pública, e não apenas disseminar uma série de dados e explicações complexas amparadas no conhecimento científico. Na avaliação de Davies, dobrar a aposta na racionalidade, isto é, na fé nos fatos e dados, não tem ajudado a combater, por exemplo, os movimentos populistas que se disseminam pelo mundo.

Diante desse novo cenário, em que não bastam dados e explicações baseadas em métodos científicos, Davies argumenta que é necessário repensar as estratégias dos governos e instituições. A primeira mudança seria reconhecer que muitos dados estatísticos, especialmente na área econômica, falharam porque tornaram-se extremamente burocráticos, sem conexão com a realidade dos cidadãos. A primeira mudança seria, portanto, no sentido de incorporar às estratégias do governo o conhecimento oriundo de campos como a antropologia e a etnografia de forma a tentar capturar o máximo de informações sobre as percepções e sobre a realidade dos indivíduos.

A segunda estratégia, segundo Davies, é adotar a mobilização baseada em narrativas. Não basta apenas despejar uma série de dados e crer que, por inércia, os cidadãos vão aderir a uma proposta. É preciso construir histórias e narrar para os cidadãos, especialmente histórias baseadas em imagens, infográficos ou visualização de dados disseminadas pelas redes. Essa seria uma forma de ampliar a possibilidade de adesão dos cidadãos, na medida que torna mais fácil compreender o que está em jogo e o que o precisa ser feito para mudar.

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