Teste indica que discurso de Bolsonaro na ONU organiza-se em três eixos

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O discurso do presidente Jair Bolsonaro, na ONU, hoje (24/09), pode ser definido como uma fala com retórica de enfrentamento. O tom, a fisionomia do presidente e a ênfase de todo o discurso sugerem alguém que se via na defensiva e decidiu reagir. E ele reagiu, ou melhor, atacou. Nada de buscar conciliação, mediação ou postura acima da briga como é esperado em um fórum diplomático. Foi um discurso muito mais voltado para o público mais aguerrido interno do que para a comunidade internacional, embora seus efeitos ocorrerão também fora do Brasil.

Na estratégia de confrontação, Bolsonaro recuperou imagens que ele usou durante a campanha, demonstrando uma vontade de manter mobilizado o segmento que o apoiou mais fortemente nas eleições, e que continua ativo nas redes. Estavam lá a disposição para enfrentar o socialismo, Cuba, Venezuela, ditaduras, as mentiras da mídia, além de pontuar a ideia de soberania nacional em risco, entre outros termos com forte identificação com o bolsonarismo raiz.

Uma análise estatística da frequência e associação das palavras mais utilizadas por Bolsonaro mostra que a fala do presidente pode ser resumida em três grandes grupos. Embora tenha falado de corrupção, Deus, família, segurança e demais assuntos, as palavras mais recorrentes estão organizadas em três grandes grupos.

Um primeiro, em azul, com 46% de representação na análise, apresenta termos como liberdade, regime, democracia, cubano, direito, socialismo, entre outros termos. Essas palavras formam o discurso mais ideológico do presidente, com forte conexão com suas posições durante a campanha de 2018.

Um segundo grupo, em vermelho, com 32% de representação, encontramos termos como mídia, interesse, governo, meio, parceria, Brasil, Amazônia, soberania entre outros. Esse grupo é aquele mais identificado com o ataque do presidente a lideranças que se pronunciaram sobre os incêndios na Amazônia, mas entram nesse grupo também, com alta associação, as críticas à mídia, que Bolsonaro acusou de mentir sobre a floresta.

O terceiro grupo, em verde, com 21% de representação, é o conjunto de palavras mais associadas à questão indígena. Esse grupo é influenciado pelas palavras da carta lida pelo presidente, que foi considera na análise.

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A análise fatorial do discurso de Bolsonaro sugere o quanto os grupos de palavras estão mais ou menos próximos. Nesse teste, os resultados indicam que a organização desses três conjuntos de palavras é bem claro, em especial o trecho sobre a questão indígena.

Esse grupo é o que mais se distancia dos termos mais usados nos outros dois conjuntos de palavras. Como é possível verificar na imagem abaixo, o grupo em vermelho (discurso de ataque à mídia e aos interesses estrangeiros) e o grupo em azul (discurso sobre o medo socialista) estão mais próximos.

Na categoria azul poderíamos, inclusive, considerar os trechos em que Bolsonaro recupera agendas de comportamento, como a questão dos valores da família, das crianças.

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Ou seja, discurso de Bolsonaro na ONU mostra um presidente que gosta quando se sente em conflito, seja lá com quem for. Foi assim que ele fez campanha, acionando mitos, medos e sensações nos eleitores. Ele deveria derrotar o petismo, o comunismo, a corrupção. Essa retórica de guerra, de enfrentamento, casa bem com o perfil militar do presidente, mas não parece se encaixar em um fórum diplomático, onde deveria prevalecer o tom mais ameno, mais conciliador.

O discurso do presidente também demonstra que Bolsonaro se vê em uma situação de desvantagem no debate internacional e local. O baixo crescimento econômico e as dificuldades das outras áreas do Governo têm se refletido nos índices de aprovação que vem caindo desde janeiro.

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