Uso de mídias sociais para se informar está associado a baixos níveis de confiança em notícias

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As mudanças no ecossistema da comunicação, sobretudo no campo do jornalismo, têm despertado um intenso debate na comunidade científica internacional, e até entre jornalistas, sobre os possíveis efeitos dessas transformações na qualidade das democracias pelo mundo.

Os hábitos de consumo de informação mudaram e esse fenômeno, como sabemos, está fortemente associado ao surgimento da internet comercial, em meados dos anos 90 e, depois, já nos anos 2000, com o aparecimento das mídias sociais e da internet móvel. A audiência, especialmente a mais jovem, não está mais na sala de estar aguardando o telejornal ou acorda cedo para comprar o jornal impresso na banca mais próxima. Os veículos tradicionais disputam espaço hoje com uma infinidade de outras fontes de informação online. A atenção do público se dispersou.

Essas mudanças, quando vistas sob o ponto de vista político, têm sugerido dúvidas, entre elas, uma relativa à confiança na informação nas diferentes plataformas. Em outros termos: como se comporta a confiança do público nas notícias nos diferentes meios de consumo de informação hoje disponíveis?

A pesquisa “News media trust and news consumption: factors related to trust in news in 35 countries”, lançada na última edição da International Journal of Communication, presenta resultados que reforçam de certa forma outro estudo produzido em 2014, por Yariv Tsfati e Gal Ariely. Na pesquisa de 2014, os autores identificaram diferenças consistentes nos níveis de confiança do público que consome informação pelos meios tradicionais (televisão, rádio e mídia impressa) e aquele que consome informação pelas plataformas online. Os níveis maiores de confiança estão associados aos meios tradicionais da imprensa.

Embora utilizem bases de dados distintas, a pesquisa de 2014 analisou um banco com informações de um survey face-a-face aplicado em 44 países,  enquanto o segundo mapeou uma base de um questionário online aplicado em 33 países, os novos achados trazem novas informações que ajudam a compreender a relação entre consumo de informação e confiança nas notícias, especialmente via mídias sociais.

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Fonte: News Media Trust and News Consumption: Factors Related to Trust in News in 35 Countries

Pelo gráfico acima, quanto mais o coeficiente está posicionado à esquerda, menor a associação entre meio de consumo de informação e confiança nas notícias. Quanto mais à direita, maior a associação com a confiança.

Segundo os pesquisadores Antonis Kalogeropoulos (Universidade de Liverpool), Jane Suiter (Universidade da Dublin), Linards Udris e Mark Eisenegger (Universidade de Zurique), quem usa as mídias sociais para se informar, segundo o gráfico acima, tende a apresentar uma associação negativa com a confiança nas notícias. A associação só passa a ser positiva quando o público consome informações via veículos tradicionais, como a televisão e o jornal imprenso. O uso de sites de marcas já conhecidas também apresenta associação positiva com a confiança nas notícias.

O estudo atual testou ainda qual a relação entre a percepção do público de que os veículos mainstream  estão mais ou menos associados a interesses econômicos e/ou políticos e o nível de confiança do público. Os dados indicam que, quanto maior a percepção de que os veículos tradicionais trabalham por interesses econômicos ou políticos, menor é a confiança dos leitores nas notícias.

Embora essas duas pesquisas tragam informações relevantes para a construção de estratégias para combater, por exemplo, o problema das fake news, ou mesmo para discutirmos os efeitos desse comportamento na confiança das instituições de uma democracia, os pesquisadores observam que não é possível afirmar qual é a direção causal desse fenômeno.

Por exemplo, não é possível saber se a baixa confiança leva os leitores a consumirem informação nas mídias digitais ou se o hábito de consumo nessas plataformas estimula a desconfiança das notícias dos meios tradicionais. Agenda para novas pesquisas. Além disso, um outro problema levantado pelos autores é a dificuldades dos meios tradicionais ocuparem as mídias digitais e serem percebidos devido à proliferação de conteúdo.

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