O que ainda resta para os partidos em um mundo de comunicação direta

Publicado por

folloow

As mudanças no ecossistema da comunicação impuseram uma série de rearranjos nos processos de interação entre as instituições e a sociedade. Isso ainda está em curso, mas já dura, mais ou menos, umas duas décadas. Mas o ponto de inflexão talvez mais forte tenha sido nos anos 2000, quando começaram a aparecer as mídias sociais. A ponto é: em que medida essas mudanças têm alterado o comportamento dos agentes políticos, no caso os partidos, e a sociedade?

Falar sobre algo que ainda está em curso tem seus riscos. Em determinado momento, vira muito mais aposta do que uma descrição razoável sobre o fenômeno e suas consequências de curto e médio prazo. Para fugir disso, tenho pensando sobre cenários, ou melhor, em hipóteses, aquelas afirmações temporárias que dependem ainda de evidências mais robustas e da própria história para serem confirmadas ou não.

Feitas essas ressalvas metodológicas, quais seriam os possíveis cenários sobre o papel dos partidos políticos dadas as características do modelo de comunicação que temos hoje? Ainda não inventamos outro modelo, mas as democracias representativas demandam a existência de partidos.

Do ponto de vista clássico, eles são responsáveis por canalizar as demandas da sociedade, organizar as disputas eleitorais e participar dos debates sobre as políticas públicas apresentadas pelo presidente ou primeiro ministro. A existência dos partidos dá também alguma inteligibilidade ao sistema político, apesar do caso brasileiro. Mas eles vem perdendo relevância nessas funções ou estamos em uma transição para um outro modelo com novas funções para os partidos? Quais os efeitos disso?

Entre o modelo clássico de democracia representativa e agora mudou, como sabemos, o canal por meio do qual os partidos ou as lideranças políticas têm contato com a sociedade para identificar agendas, interpretá-las e processá-las no debate público.

Portanto, quais modelos nos restariam diante desse cenário de maior conexão, de uma forte presença das empresas de tecnologia da comunicação nos processos decisórios e, principalmente, do papel dos partidos?

Exploro três modelos aqui procurando responder genericamente a duas questões, sem entrar no mérito de como seria a questão da governabilidade, função também desempenhada pelos partidos:

a) Qual o papel dos partidos na organização das disputas eleitorais

b) Qual o papel dos partidos na organização das votações no Parlamento

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Tendo a achar que as democracias pelo mundo caminham muito para o terceiro modelo. As consequências são tantas, seja do ponto de vista da representação dos interesses, seja do ponto de vista do poder que as empresas de tecnologia de comunicação teriam nas democracias, que deixarei para outro post, já que esse aqui já ficou maior do que esperava.

Cenário 1: Partidos se fortaleceriam. Democracia representativa rejuvenescida

A primeira hipótese afirma que os partidos têm interesse em sobreviver politicamente, logo, teriam incentivos para se ajustarem ao novo cenário da comunicação. As constituições também não passariam por mudanças do ponto de vista de impedir ou extinguir os partidos como instituições. Desse modo, com a exigência de que são responsáveis pelo jogo político e de que não serão extintos legalmente, os partidos fariam mudanças nas suas agendas procurando mais conexão com a sociedade. A consequência dessa estratégia seria o fortalecimento das legendas na organização da disputa eleitoral e na organização do Parlamento. Os partidos continuariam no jogo e usariam as redes não para serem conduzidos, mas para conduzir os processos.

Cenário 2: Partidos seriam extintos. Democracia digital direta

O avanço do desagaste e da incapacidade de os partidos representarem os interesses ou de organizarem as disputas políticas, dado que a comunicação passaria ser mais e mais centrada no vínculo entre pessoas e não instituições, as legendas caminhariam para a completa extinção. Legalmente, as democracias fariam reformulações bruscas, a ponto de impedir a existência dos partidos, e criariam mais mecanismos legais para a conexão entre a sociedade e o campo político por meio da comunicação direta. As empresas de tecnologia jogariam um papel central na condução dos processos eleitorais e na área parlamentar.

  1. Arena Eleitoral: Nesse contexto, as disputas eleitorais passariam a enfatizar mais e mais os valores e crenças pessoais dos políticos, estimulando o engajamento em torno dessas variáveis que podem ser de fundo político, religioso ou pelo simples fato de serem pessoas já conhecidas em outras áreas de atuação. A gramática e o tipo de mensagem predominante nas redes teriam uma forte influência na organização das redes e apoiadores.
  2. Organização das votações no Parlamento: As votações dependeriam mais fortemente da capacidade das lideranças mobilizarem as redes, que apresentariam dados influenciados por engajamento orgânico e inflacionado por robôs. Teríamos apoios virtuais resultado dos mais organizados ou com recursos econômicos, de tempo e político para influenciar as decisões. As votações tenderiam a representar mais segmentos, e menos interesses mais gerias. A tecnologia e, especialmente, seus proprietários, teria grande peso nos processos decisórios nas democracias locais.

    Cenário 3: Partidos secundários. Democracia de legendas virtuais

O terceiro cenário considera um modelo de coexistência, mas os partidos perdendo o protagonismo que tiveram desde o nascimento das democracias representativas. Legalmente, eles seriam mantidos nas constituições, mas seu papel seria mais o de referendar as escolhas do que estimular, organizar e patrocinar as decisões políticas. Seria uma espécie de democracia direta, mas legitimada pelas legendas, com o status que até então classificavam sistemas de democracia por representação. As constituições passariam por mudanças para permitir que a sociedade possa participar das decisões, ampliando os canais de comunicação e representação direta. Também nesse cenário, as empresas de tecnologia desempenhariam papel central dos processos decisórios.

  1. Arena Eleitoral: Nesse modelo, os partidos deixariam de conduzir do início ao fim o processo de escolha dos candidatos. Eles apenas identificariam as preferências dos eleitores nas redes e utilizariam essas informações como um preditor de chance eleitoral. Logo, os partidos não decidiriam, nem organizariam as disputas, eles apenas acompanhariam como instituições responsáveis por dar legitimidade ao processo. Novamente, as empresas de tecnologia teriam grande influência nesse processo.
  2. Organização das votações no Parlamento: O cenário seria muito parecido com a organização das eleições e escolha de candidatos. Os partidos e suas lideranças não teriam interesse em contrariar os fluxos de opinião formados pelas redes, sequer buscariam levantar bandeiras. Buscariam mais o uso das redes como indicador das suas decisões. Nesse modelo, como no anterior, os grupos organizados e com mais recursos tecnológicos, financeiros e políticos conduziriam os partidos na arena Parlamentar.

 

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