Mensagens críticas no WhatsApp mudaram mais o voto de quem menos recebeu mensagens pelo aplicativo

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Há muitas dúvidas ainda sobre as mudanças no modelo de campanha presidencial no Brasil. Desde o início da atual disputa, analistas e pesquisadores sabiam que as mídias sociais e os dispositivos de troca de mensagens instantâneas teriam um papel mais relevante neste pleito. Mas havia um racha. Os menos afoitos continuaram apostando no peso da propaganda na televisão como um fator determinante na força das candidaturas; enquanto os mais apressados afirmaram que “esta era a eleição dos meios digitais”.  O resultado do primeiro turno, na verdade, mostrou que ambos estavam certos. O Brasil tem hoje um modelo híbrido, no qual a televisão e os meios digitais desempenham um papel mais complementar do que de substituição.

Só para lembrar. O candidato sem força partidária, poucos recursos e quase nenhum tempo na televisão, no caso Jair Bolsonaro (PSL), conseguiu disseminar a sua mensagem e mobilizar os eleitores nas mídias sociais e WhatsApp. A questão é que o segundo competidor, neste segundo turno, é um candidato mais próximo do modelo tradicional de campanha. Fernando Haddad (PT) foi lançado 20 dias antes do dia da votação e a intensa propaganda na televisão o ajudou a colar na imagem no ex-presidente Lula.

A associação entre renda e mensagens do WhatsApp

Embora o quadro aponte para o modelo mais complementar, a campanha de 2018 ainda procura respostas para a seguinte questão: qual, afinal, foi o impacto das mensagens dos dispositivos digitais na decisão do voto? Os primeiros dados começam a indicar que os efeitos são muito parecidos com o que a ciência política e os estudos de comunicação já consideram há pelos menos 60 anos. Para falarmos em efeitos, temos que falar primeiro do grau de atenção à informação política.

Os dados da pesquisa IBOPE, divulgados na terça-feira (23/10), trazem algumas conclusões ainda que temporárias bastante interessantes, em especial por focar no uso do WhatsApp. A ferramenta tem sido apontada exageradamente como determinante para o resultado da campanha presidencial. Plotei os dados do IBOPE considerando as respostas dos eleitores para a pergunta “Sem considerar a propaganda eleitoral gratuita, o(a) sr(a) recebeu conteúdo com críticas ou ataques (…), e cruzei essas informações com a renda familiar e escolaridade. Todas as respostas se referem ao primeiro turno.

O resultado agregado mostrou que 73% dos entrevistados afirmaram que não receberam nenhuma mensagem com críticas e ataques a candidatos. Ou seja, cerca de 25% dos entrevistados receberam essas mensagens (houve 2% de não sabe, não respondeu).  Tanto Haddad (18%) quanto Bolsonaro (18%) foram alvo preferido dos ataques e críticas. Não parece um percentual desprezível, mas quem, afinal, tem mais chances de receber essas mensagens e repensar o seu voto? No caso, é importante lembrar, mensagens negativas, que procuraram minar as candidaturas adversárias.

Os dois primeiros gráficos mostram que há uma relação direta entre renda, escolaridade e a proporção de respostas de eleitores que afirmaram ter recebido mensagens com críticas aos candidatos. Quanto maior a renda ou a escolaridade, maiores são as chances de o eleitor ter recebido esse tipo de conteúdo; quanto menor a renda e a escolaridade, menores são as chances de receber o conteúdo. Esse resultado sugere que as trocas e compartilhamentos mais intensos nas redes estão associados a grupos com perfis socioeconômicos muito parecidos, no caso os de alta escolaridade. São perfis que, provavelmente, têm um interesse por política ou informações sobre política acima da média.

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Relação entre receber mensagem e mudar o voto

O segundo gráfico tenta entender outra coisa: essas informações recebidas pelo WhatsApp afetaram a sua escolha eleitoral? A relação também está de acordo com o que já se sabe nos estudos sobre comportamento eleitoral. Paradoxalmente, o impacto (mudança de voto) de uma mensagem é maior nos grupos que menos prestam atenção ou estão sujeitos a receber informações políticas. Inversamente, estou dizendo o seguinte: quem mais acompanha e presta atenção nas informações políticas são os que menos mudam de posição ou orientação político-eleitoral. O efeito aí é mais no sentido de reforçar predisposições do que provocar mudanças.

Esse comportamento demonstra que, agregadamente, o impacto das mensagens distribuídas por esse aplicativo não foi generalizado, e tendeu mais a reforçar a predisposição eleitoral de quem mais recebeu mensagens. Um contingente menor, segundo os dados, teve a sua decisão do voto afetada, mas é um grupo de eleitores que também receberam menos mensagens com críticas ou ataques aos candidatos no WhatsApp.

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Esses resultados sugerem, por outro lado, que o grupo com potencial grande de ter a sua orientação eleitoral afetada é aquele situado acima de 1 salário mínimo e abaixo de 5 salários mínimos. Isso ocorre porque esse grupo afirmou, entre 22% e 30% das vezes, que recebeu mensagens pelo WhatApp, demonstrando que eles participam relativamente de redes que disseminaram informações. Por outro lado, entre 18% e 27% desses dois grupos admitiram que essas informações ajudaram a decidir o voto. Para se ter uma ideia. Esse percentual é de apenas 15% no grupo acima de 5 salários mínimos (acesso alto, mas baixa disposição de mudar) e de 41% entre aqueles com até um 1 salário mínimo (baixo acesso, e alta disposição de mudar).

 

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