O papel do derrotado na disputa presidencial. Por que isso importa

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A disputa eleitoral, por razões óbvias, tende a concentra maior atenção naqueles que poderão eventualmente governar o país nos próximos quatro anos. Interessa saber o que pensam, o que farão para resolver os graves problemas que temos pela frente. Visto pela perspectiva do resultado do jogo, faz sentido. Mas essa narrativa ignora um segundo elemento que, na atual circunstância, tem um papel igualmente relevante na condução do próximo governo: o candidato derrotado.

O ponto de partida para entendermos o papel desse ator político é a eleição de 2014. Derrotado na disputa pela chapa liderada por PT-PMDB, o candidato PSDB ingressou com duas ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) questionando o resultado do pleito por possíveis infrações cometidas pela chapa vencedora ou por fraude nas urnas eletrônicas. Dali em diante, o candidato derrotado usou o seu capital político vindo das urnas para liderar uma aposição sistemática ao governo eleito. Não houve trégua entre o fim da eleição e os anos que se seguiram. Recentemente, o ex-presidente do PSDB, Tasso Jeireissati, reconheceu parte dos erros do partido na oposição.

Sobre 2018. É inegável que vencendo ou não que Jair Bolsonaro tem hoje um papel relevante no cenário político brasileiro, concorde ou não com suas ideias. Se esse capital político vai se dissipar ou não, é questão futura a ser respondida. Mas o fato é que ele sairá das urnas liderando um campo de maior magnitude, e com capacidade de se comunicar com esse grupo de maneira muito direta. Vamos trabalhar com a hipótese de derrota do candidato do PSL. O que esperar do seu papel como líder de oposição?

Bolsonaro reflete e reforça, a meu ver, o movimento de 2014. De onde estamos, é possível dizer que o campo da oposição se desloca desde aquele ano de um ponto de oposição moderada para o de uma oposição radicalizada, intransigente. Ao ocupar eventualmente o papel de líder da oposição ao governo, Bolsonaro será um polo de atração entorno do qual haverá pouquíssima vontade de negociar pautas ou contribuir para amenizar os ânimos. As recentes intervenções do candidato do PSL lançando desconfiança sobre o resultado eleitoral sugerem uma estratégia de insistir, como foi feito em 2014, no descrédito das instituições e, evidentemente, no processo eleitoral como algo legítimo.

Está aí a senha do que tenho insistido com vários amigos. Talvez o mais importante como compromisso público a ser cobrado dos candidatos não é o que eles vão fazer, caso sejam eleitos, mas saber o que eles não farão caso sejam derrotados. Essa é chave para pensarmos a estabilidade do próximo governo e, mais à frente, o clima político de 2022. Ao que parece, a eleição de 2018 inaugura, logo após anunciar o seu resultado, a campanha eleitoral dos próximos quatros anos. É a campanha permanente e sem trégua.

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