Votar é um ato de concessão

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Democracias em sistema proporcionais são quase sempre lembradas por seu viés consensualista, mas pouco associadas ao grau de frustração que podem gerar nos eleitores. Para obter força eleitoral, candidatos a presidente da República, por exemplo, precisam fazer coligações eleitorais com diferentes parceiros políticos. Isso será mais intenso também após a sua eleição porque é necessário formar maiorias no Congresso. Mesmo candidatos com baixa capacidade de agregar força partidária, caso eleitos, terão que buscar maiorias com Fulano, Beltrano e Cicrano, aqueles das legendas feias e sujas que você desprezou no primeiro e, talvez, no segundo turno.

Do ponto de vista do eleitor, essas características do modelo implicam em algum grau de frustração na fase eleitoral ou na fase de formação do governo. Talvez essa seja uma das maiores dificuldades de comunicação dos candidatos a presidente, porque ninguém imagina um competidor tomado por um ato de sincericídio afirmar: “Desculpe eleitor, mas você vai se frustrar comigo”.

O modelo eleitoral, portanto, sugere que votar é, na verdade, um ato de concessão para a maioria dos eleitores. Nem sempre esse ato é muito claro, mas estamos sempre fazendo alguma concessão. O candidato A é, segundo a sua percepção, o mais preparado, mas ele fez uma coligação ou tem um vice do partido XYZ que te desagrada fortemente. Num ato de racionalidade, você desconsidera a participação desse partido ou do vice, e mantém a sua posição, porque é mais importante eleger o seu candidato, independentemente dos seus defeitos. Se não for capaz de fazer essa concessão, buscará outro competidor e, novamente, começam as avaliações sobre prós e contras. Muitas vezes sequer nos damos conta dos “defeitos políticos” do candidato porque o que importa é o que ele representa para mim, o que acredito que fará “por mim” e pelo “meu país”.

Estas são concessões implícitas que fazemos a cada eleição, mas elas não são uma prática comum a todos os eleitores. Aqueles mais posicionados politicamente ou totalmente descrentes da política tendem a fazer nenhuma ou pouquíssima concessão. Há um efeito psicológico aqui de reduzir danos. Mesmo não elegendo o seu candidato, sentem-se beneficiados porque “não ajudaram a eleger essa corja”. Pode-se dizer que esses eleitores se esquecem ou não querem encarar o fato de que não estão elegendo padres, nem freiras, ainda que hoje essa comparação não seja lá muito interessante.

Boa parte dos eleitores, portanto, está neste momento pensando melhor em quem votar. Fazem avaliações, ouvem amigos e pessoas que confiam na tentativa de medir qual o sentimento comum da “maioria dos eleitores”. “Qual defeito é publicamente inaceitável hoje e que, uma vez aceito, tendo a encarar dias difíceis para defender o meu candidato?”. Somos uma espécie de Instituto de Pesquisa Eleitoral ambulante. Ouvimos meia dúzia de pessoas, direcionamos atenção para determinados interlocutores e fazemos inferências sobre os custos e benefícios que mais valem a pena encarar. É o ato de concessão em pleno vapor, embora não encaremos assim, nem verbalizamos dessa forma. Queremos é acertar o voto, conceder jamais. Mas, pode esperar, estaremos frustrados em alguma medida em um futuro próximo.

Há alguma possibilidade de as concessões de hoje reduzirem as frustrações de amanhã? Em parte sim, mas na maioria das vezes, a frustração estará presente porque hoje não temos condições de anteciparmos tudo que o candidato, uma vez eleito, fará para organizar maiorias no Congresso. Será preciso um ato de concessão pós-eleitoral para reduzir essa frustração futura. Ou, na melhor das hipóteses, o candidato que produziu frustração inicial consiga um excelente desempenho a ponto de esquecermos seus “defeitos políticos”. “Eu sempre soube que ele era o melhor candidato”, registre porque você vai ouvir isso por aí.

Agora pense em candidatos ou eleitores que estão alinhados porque afirmam explicitamente que não estão interessados em fazer concessão alguma. Advogam um certo purismo político que os colocam na seguinte situação: um candidato que não diz tudo que deveria dizer porque precisará fazer concessões “inaceitáveis” em um futuro próximo, e eleitores aguerridos hoje que serão os frustrados de amanhã. Bem, isso na hipótese de que o candidato tenha interesse em governar com as regras atuais do jogo.

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