Centristas ou radicais. O debate sobre quem tem desistido da democracia

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Dois artigos publicados recentemente nos jornais The New York Times e Washington Post iniciaram uma discussão sobre a relação entre crença na democracia e posição ideológica dos eleitores, e ambos chegaram a conclusões bem distintas. Enquanto o primeiro, surpreendentemente, defende que os eleitores de centro são aqueles mais descrentes na democracia, o segundo apresenta dados que mostram que os eleitores radicais, e não aqueles de direita, centro ou esquerda, são os mais propensos a apoiar a substituição da democracia.

Publicado no NYT no dia 23 de maio, o artigo “Centrists are the most hostile to democracy, not extremists”, assinado pelo cientista político David Adler, defende, entre outras coisas, que a perda de apoio à democracia não é maior entre os eleitores de extrema esquerda e extrema direita, mas sim entre aqueles que se consideram de centro. A conclusão do estudo difere do que se sabia até então. Para a ciência política, os eleitores dos extremos do espectro político sempre foram considerados grupos com uma tendência maior a rejeitar a democracia.

No artigo, Adler analisa uma série de dados de pesquisas de opinião realizadas nos Estados Unidos e Europa. A partir da autodeclaração dos eleitores, eles podiam dizer se eram de centro, esquerda ou direita, Adler cruzou os dados com a afirmação de que a “democracia é um bom sistema político”. A média entre os países da Europa mostrou que apenas 42% dos entrevistados de centro concordavam com a afirmação. Esse percentual foi de apenas 33% nos Estados Unidos.

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Fonte: The New York Times

Na Europa, os eleitores de extrema esquerda ou extrema direita apresentaram percentuais relativamente maiores (cerca de 50%) de concordância de que a democracia é o melhor sistema político. Nos Estados Unidos, mais de 50% entre aqueles de extrema esquerda e pouco mais de 40% entre os de extrema direita concordaram que a afirmação.

Adler reforça o seu argumento com outros dados. Entre os americanos, segundo ele, cresceu o percentual de eleitores de centro que apoiam líderes fortes. Esse percentual, na verdade, vem subindo desde os anos 90, quando registrava pouco menos de 30%, e agora está em 40%. À esquerda, esse apoio vem caindo, enquanto à direita, ele é estável.

O artigo de Adler gerou uma resposta do também cientista político Matthijs Rooduijn. Ele publicou na terça feira (12/06) no Washington Post o artigo “It’s radicals, not centrists, who are really more hostile to democracy”, em que diz que o estudo de Adler tem problemas metodológicos. Rooduijn defende que são os eleitores radicais e não os de centro do espectro político os mais hostis à democracia como sistema político. O argumento dele é que a autodeclaração no espectro ideológico esconde situações em que o eleitor vota com um candidato de extrema esquerda ou extrema direita, mas se vê como uma pessoa de centro. Ou seja, a autodeclaração não seria hoje uma boa forma para identificar o que para ele é a questão central: os eleitores com crenças radicais.

Para testar essa hipótese, o pesquisador analisou dados sobre a percepção dos eleitores em relação à imigração e o partido da sua preferência. Segundo o cientista político, 43% dos eleitores que votam em partidos radicais de direita, como a Frente Nacional na França e a Liga na Itália, se autodeclaram como de centro. Cerca de 48% dos que têm uma percepção negativa sobre a questão dos imigrantes também se autodeclaram de centro. “Em outras palavras, muitos dos que se identificam como centristas não são moderados quando você analisa como eles votam e em que eles acreditam”, diz Rooduijn.

O pesquisador apresenta outros cruzamentos que confirmam a sua hipótese. Tanto os radicais de esquerda quanto os radicais de direita dão menos importância viver em um país democraticamente governado. Esse grupo apresenta percentuais sempre maiores de insatisfação com a democracia. “Em outras palavras, os cidadãos com atitudes típicas de um radical são mais céticos e insatisfeitos com a democracia do que os cidadãos com crenças pluralistas e multiculturalistas mais moderadas”, conclui Rooduijn.

O contexto das duas pesquisas difere muito do cenário no Brasil, mas um ponto me parece fundamental. Nos últimos anos temos visto manifestações de eleitores que pedem a substituição da democracia por um regime militar. Coincidentemente, essas manifestações acontecem em um momento de profunda crise no sistema político, afetado por denúncias de corrupção, e da ascendência de grupos mais radicais, especialmente nas redes sociais. A candidatura de Jair Bolsonaro, de certa forma, reflete esse momento. Ele tem buscado vocalizar a percepção de eleitores mais radicais. Talvez este seja um indicativo mais próximo da hipótese de Rooduijin. Quanto mais radical é o eleitor, mais ele tem desprezo pela democracia como sistema político, e mais tende a depositar em um líder “forte” suas esperanças.

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