A relação entre incerteza eleitoral e usos do WhatsApp

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São muitas as apostas dos possíveis efeitos das mídias sociais no processo eleitoral deste ano. Temos quebrado a cabeça para entender como essa tecnologia pode influenciar o processo de decisão do eleitor. Mas provavelmente nada intriga mais que o WhatsApp. Enquanto Facebook, Twitter e Instagram são relativamente “monitoráveis”, temos muitas dificuldades de saber exatamente como o uso do WhatsApp tem alterado as formas de fazer campanha ou mobilizações política. A rede é fechada e não existem dados disponíveis para testamos seus efeitos.

A despeito dessa dificuldade metodológica, tem sido aceita a hipótese de que esse sistema de troca de mensagens instantâneas reduz os custos da ação coletiva. O dinamismo da rede permite que manifestações possam ser rapidamente organizadas. Nos grupos de WhatsApp, a sensação de que algo muito importante está acontecendo é quase sempre identificada no volume de informações que recebemos dos diversos canais ou contatos que mantemos na nossa agenda.

O fluxo intenso de mensagens seria um estímulo para participarmos porque estamos diante de algo “socialmente relevante”. Essa percepção pode ser bem distorcida. Os sinais podem estar, por exemplo, restritos a alguns grupos, mas como ninguém tem ideia da sua amplitude, o fluxo de mensagens acaba sendo traduzido como um indicativo de que “todo mundo” está mobilizado no mundo offline.

Recentemente, conversei com alguns amigos que apostam que o WhatsApp terá um papel central na campanha eleitoral deste ano. A aposta não é desconectada da realidade. Estima-se que mais de 120 milhões de pessoas no Brasil utilizem o aplicativo. Outro dado importante. Com a campanha mais curta e menos recursos para gastar na TV, os partidos e candidatos vão buscar ao máximo ocupar os grupos do WhatsApp. Grupos engajados são bons cabos eleitorais no mundo digital. Diante desse cenário, fiquei me perguntando qual seria a relação entre um modelo de acesso à informação de baixo custo e a incerteza eleitoral.

Neste post, procuro discutir modelos que levem em conta o alto e o baixo custo de acesso e distribuição de informação e a incerteza eleitoral. Nesse modelo, considero o eleitor comum, ou seja, aquele sujeito que não está vinculado a partidos ou grupos políticos. São menos engajados politicamente e, quase sempre, só vão começar a prestar atenção na eleição em meados de agosto. Essa é a maior faixa do eleitorado.

Incerteza eleitoral. Essa variável pode ser descrita como reflexo do número de opções eleitorais para o eleitor. Na hipótese de todos os candidatos terem peso competitivo igual, a incerteza cresce à medida que temos mais candidatos na disputa. Quanto maior o número de candidatos, mais difícil é compreender as diferenças que podem ser fundamentais para a tomada de decisão do eleitor. Obter informação passa a ser uma estratégia necessária para reduzir a incerteza.

Esse trecho da obra de Anthony Downs é elucidativo. “A incerteza é qualquer falta de conhecimento seguro sobre o curso de acontecimentos passados, presentes, futuros ou hipotéticos. Em termos de qualquer decisão específica, ela pode variar quanto à possibilidade de eliminação, à intensidade e à relevância. Quase toda incerteza é removível através da obtenção de informação, se uma quantidade suficiente de dados estiver disponível. Entretanto, alguma incerteza é intrínseca a situações específicas” (Downs, p. 97, 1957)

Modelo informacional tradicional. Esse modelo corresponde ao sistema tradicional de comunicação, isto é, sem mídias sociais ou aplicativos de troca de mensagens instantâneas. Nesse modelo, o acesso à informação está restrito às fontes como TV, rádio ou jornal. Ou seja, ele tem como característica central o fato de o fluxo de informação ser fortemente coordenado pelos meios tradicionais. Esses meios funcionam como filtro dando maior ou menor visibilidade aos competidores. Embora a incerteza eleitoral cresça com o número de candidaturas, já que todas têm interesse em disseminar informação, o eleitor, quase sempre, percebe como competitivos dois ou três candidatos. Estes são aqueles que, na visão dos meios de comunicação, “têm mais chance eleitoral”. Portanto, o modelo tradicional, mal ou bem, reduziria a incerteza total da competição para uma incerteza do tipo controlada.

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Modelo informacional digital. Nesse modelo, o eleitor tem acesso a fontes de informações diversas. À medida que cresce o número de competidores, os eleitores ficam mais sujeitos a uma variedade de informações sobre os candidatos porque, como já lembrado, todos têm interesse em disseminar informação. A incerteza eleitoral caminharia junto com a variedade de fontes. A hipótese aqui é que essa variedade criaria um ambiente mais propício ao conflito de informações sobre os candidatos, ampliando os custos de decisão sobre qual seria a melhor opção eleitoral. Ou seja, mais fontes pode ser um indutor de incerteza na medida que os competidores e os eleitores podem ter acesso a tecnologias de baixo custo de produção e disseminação de informação. A inflação de informações contraditórias operaria contra a hipótese inicial de que mais informações reduziria a incerteza.

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Relação entre os dois modelos. Como é impossível para o eleitor do modelo digital ampliar continuamente o número de fontes de informação para reduzir a sua incerteza, o mais provável é que os usuários de sistemas como o WhatsApp busquem restringir a sua participação a grupos com os quais se identifica mais durante o processo de trocas de informação. O eleitor passa a ser o filtro principal das informações.

Essa hipótese, contudo, sugere que a variedade de fontes do modelo digital mantém-se mesmo assim em um nível acima da incerteza do eleitor do modelo tradicional. Isso ocorreria porque, embora possa reduzir a sua participação nos grupos e ou evitar determinadas fontes, o eleitor está sujeito a receber a qualquer momento informações novas sobre os candidatos, denúncias, fake news entre outros conteúdos. Informações contraditórias podem levá-lo a repensar a sua escolha. Essa possibilidade, é claro, não está fora do modelo tradicional.

No modelo tradicional, porém, a apuração e a disseminação das informações ocorrem sob um ritmo muito mais lento. Mais: a incerteza eleitoral que ele pode gerar é sempre dependente da atuação dos meios tradicionais, logo, dos filtros políticos ou critérios jornalísticos de apuração e empacotamento da informação sobre os competidores. No contexto atual, há uma boa chance de o eleitor, ao ser confrontado com informações contraditórias sobre os candidatos, busque saber o que os meios tradicionais estão falando sobre o candidato. Essa interação tradicional-digital devolveria, portanto, o espaço de coordenação geral que os meios tradicionais procuram desempenhar durante o processo eleitoral.

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A análise da relação dos modelos de comunicação e incerteza eleitoral sugere que a associação entre dinamismo na troca das informações eleitor-eleitor tende a ter um peso maior à medida que temos mais candidatos no páreo. A dispersão de candidaturas induziria também a uma maior dispersão de fontes alternativas de informação, muitas delas produto do interesse do eleitor de participar de grupos para atuar como cabo eleitoral. É um modelo que não apenas reequilibra o peso e a centralidade dos meios tradicionais de comunicação, como potencializa a incerteza eleitoral para os eleitores sempre que há mais candidaturas na disputa.

É claro que isso é um exercício mental de construção de modelos. Nada do que está representado nos gráficos acima ocorre necessariamente no mundo real. Trata-se, portanto, de uma tentativa de entendermos os impactos de uma forma de comunicação instantânea, com uma dinâmica muito diferente do modelo que vigorou até então e que, o que mais é significativo, deu aos eleitores, candidatos e partidos a possibilidade de serem disseminadores de informações para um grande grupo de pessoas. É, sem dúvida, um modelo com potencial de afetar fluxos de informação e o processo de decisão eleitoral, mas, como disse a um amigo recentemente, sabemos apenas da sua importância, e muito pouco ainda sobre o seu real efeito sobre o campo político.


Referência

Downs, Anthony. Uma teoria econômica da democracia. Edusp, 2013[1957].

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