Como o eleitor adquire e processa informação política. A quinta hipótese

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Estudos da Ciência Política realizados nos Estados Unidos buscam, desde os anos 40, entender quais são os fatores que mais pesam no processo de escolha dos eleitores. Inicialmente, admitia-se que a história da nossa socialização política, ou seja, a maneira pela qual incorporamos crenças políticas desde a infância e as preferências partidárias exerciam uma influência consistente nesse processo. Além desses dois fatores, características sócio-econômicas ou culturais também ajudaram a entender um pouco mais sobre o comportamento eleitoral.

Tudo isso funcionou mais ou menos bem até os anos 70/80. A queda das preferências partidárias, a maior complexidade dos fatores sócio-econômicos e, principalmente, a centralidade dos meios de comunicação impulsionaram novos estudos no campo do comportamento eleitoral. As campanhas eleitorais e a imprensa passaram a receber uma maior atenção dos pesquisadores, que viam no processo de aquisição de informação um elemento igualmente importante para entender a escolha dos eleitores.

Pesquisas sugerem que a maioria dos indivíduos adota estratégias de decisão que usam apenas um número muito pequeno entre todos os critérios de decisões possíveis: alguns indivíduos votam segundo questões políticas, outros são eleitores de partidos e outros focam nas características dos candidatos (Richard Lau, Mona Kleinberg e Tessa Ditonto)

As pesquisas não abandonam as variáveis clássicas (preferência partidária, escolaridade, renda, cor, religião) de explicação do voto, mas passam a acompanhar mais atentamente como essas características se associavam com as variáveis comunicacionais de uma campanha. Os estudos do comportamento eleitoral buscaram também abordagens que levassem em conta o conhecimento de outros campos de pesquisa, como a psicologia. Ainda no final dos anos 80, pesquisadores passaram a aceitar a hipótese de que a maior ou menor habilidade para identificar, processar e resolver um problema a partir das informações que adquirimos poderia influenciar o processo de escolha eleitoral. Surgem então os estudos focados nas estratégias de decisão dos eleitores. Basicamente, essas estratégias envolvem saber como os indivíduos i) coletam informações relevantes (seja externamente ou recorrendo à memória), ii) avaliam essas informações e iii) escolhem entre as alternativas um curso de ação.

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Desses estudos, surgiram as estratégias “escolha racional”, “confirmatória”, “rápida e frugal” e baseadas no processamento “heurístico” das informações. Agora, os pesquisadores Richard Lau, Mona Kleinberg e Tessa Ditonto argumentam que há uma quinta estratégia, que eles identificam como “instintiva” (em uma tradução livre). Na última edição da revista Public Opinion Reaserch, os pesquisadores publicaram o artigo Measuring voter decision strategies in political behavior and public opinion reaserch, no qual apresentam os resultados de seis rodadas de pesquisas de opinião aplicadas nos Estados Unidos com 6,5 mil entrevistados. Os pesquisadores mediram o quanto os eleitores concordavam ou discordavam de afirmações sobre como eles tomam decisões políticas, ou como acreditam que deveriam ser essas decisões, e concluíram que há uma quinta estratégia adotada pelos indivíduos para processar informação política e fazer uma escolha.

Estratégia escolha racional: envolve uma busca profunda de informações sobre os candidatos, partidos e propostas. Além disso, o eleitor faz comparações entre os competidores, pondera suas diferenças e similaridades e procura medir a probabilidade de que as promessas serão ou não cumpridas. Essa estratégia é altamente associada ao interesse e conhecimento sobre política.

Estratégia confirmatória: está vinculada ao processo de socialização política pela qual passamos. Nesse caso, um processo de reconhecimento dos símbolos políticos, como partidos políticos e suas características e valores. Esta estratégia é fortemente associada à identificação partidária. Desse modo, a busca de informações é, geralmente, mais passiva do que ativa, uma vez que as crenças em partidos e/ou candidatos reduzem a necessidade de uma busca ativa por mais e mais informações.

Estratégia Rápida e Frugal: esse processo assume que os eleitores são motivados pelo princípio da eficiência, o que leva a buscar de forma rápida apenas informações gerais sobre política, candidatos e questões em discussão. Normalmente uma ou duas questões gerais bastam para seu processo de decisão. Essa estratégia está associada com faixa etária e o baixo interesse por política.

Estratégia Heurística: como os eleitores têm limitação cognitiva para processar informação e são motivados a tomar decisões melhores, suas buscas tendem a ser através dos atalhos informativos que eles acreditam trazer o suficiente para a tomada de decisão (através do telejornal, por exemplo). Os eleitores tendem a buscar atalhos que satisfaçam mais as suas expectativas e evitam aqueles que exigem um maior esforço cognitivo para processar informação (a diferença entre ler um livro e assistir um telejornal, por exemplo). Tem associação com baixo interesse por política.

Finalmente, a quinta estratégia proposta pelos pesquisadores baseia-se no quanto os eleitores concordam com a afirmação “quando tenho que tomar uma decisão, eu sigo o meu instinto”.

Estratégia Instintiva: é uma estratégia estritamente afetiva, geralmente inconsciência, e não envolve uma deliberada busca externa por informação. Está mais associada à busca superficial de informações, sem nenhum esforço para comparar as alternativas, mas sim baseando-se mais no próprio instinto. Geralmente, o eleitor que adota essa estratégia alega que faz boas escolhas e que se sente bem com suas decisões. Tem associação com baixa escolaridade e baixo interesse e conhecimento sobre política.

ASSOCIAÇÃO ENTRE AS ESTRATÉGIAS

Como as estratégias podem ser combinadas e, muitas vezes, apresentam algumas características que se sobrepõem, os autores testaram o quão elas se diferenciam. Na tabela abaixo, quanto mais próximo +1, mais duas estratégias são parecidas, e quanto mais próximo de -1, mais elas são diferentes. Repare que, no geral, as estratégias são bastante distintas.

A estratégia “escolha racional” é a mais diferente das demais, enquanto a “confirmatória” tem associação positiva, mas não muito forte com o estratégia “heurística”(.392). A estratégia “instintiva” é a que mantém a menor relação com as demais, relevando que ela tende a ser uma forma muito própria do eleitor buscar informações.

tabela

Como conclusão, os autores argumentam que as estratégias de decisão dos eleitores identificadas no estudo podem ajudar a entender como os indivíduos utilizam a mídia (mainstream da imprensa versus fontes ideológicas; jornais versus televisão), bem como os tipos de mensagens de campanha que seriam mais eficazes para persuadi-los.A meu ver, essa conclusão sugere outras questões igualmente interessantes.

Em um ambiente com baixo custo de aquisição de informação, caso da internet e das mídias sociais, temos modelos de estratégia adotados pelos eleitores que podem ajudar a entender, em certa medida, escolhas políticas que dependeriam cada vez menos de uma profunda busca de informações sobre questões políticas, e mais dos atributos dos candidatos, questões mais triviais da disputa ou mesmo baseadas apenas no instinto dos próprios eleitores.

A comunicação direta entre competidores e eleitores via mídias sociais, por outro lado, estimularia a adoção de estratégias de campanha mais focadas em características pessoais dos candidatos ou mesmo em questões com maior capacidade de empolgar as redes, mas substantivamente irrelevantes para uma melhor escolha política. Essa hipótese, claro, precisa ser testada, mas algo sugere que ela não é completamente sem sentido, quando se sabe que a maior parte dos eleitores tem baixo ou quase nenhum interesse por política.

Por outro lado, a estratégia baseada no instinto sugere a participação de eleitores não apenas menos interessados em informação política, mas, de certa forma, mais vulneráveis às ondas de informações que circulam velozmente pelas mídias sociais. Se isso for verdade, talvez tenhamos aqui uma indicação do que assistimos recentemente, com disputas sendo decididas cada vez mais horas antes do fechamento das urnas e menos em função de processos mais longos de aquisição e processamento de informação.

2 comentários

  1. O brasileiro vota em pessoas, pois é desacreditado dos partidos, não sem razão. Mas, também esquece de que há bancadas que envolvem os maiores partidos como MDB, PSDB, PT, etc. Justamente estes que têm maior tempo de propaganda eleitoral.

    Deve haver uma forma de incentivar os indecisos a votarem em partidos menores, fragmentando a possibilidade de manobras políticas avessas aos eleitores.

    Daria pra fazer um post só sobre isso.

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