Baixa habilidade cognitiva pode explicar ação de quem dissemina informações falsas

Publicado por

images

Horas após o assassinato da vereadora Marielle Franco, começaram a circular nas mídias sociais informações falsas sobre o seu trabalho e a sua vida pessoal. Quem se deu ao trabalho de ler o conteúdo desses posts e mensagens pôde verificar que se tratava de uma ação política deliberada, com o nítido propósito de desconstruir a imagem da vereadora do PSOL, identificada com o campo da esquerda. Essa é a hipótese para “quem produziu esses conteúdos”, mas ela explica apenas parte do problema.

A outra, e que provavelmente conviveremos ainda por um bom tempo, é saber por que usuários de mídias sociais compartilham informações falsas? É preciso separar, certamente, aqueles que compartilham por questões ideológicas ou políticas. Para esse grupo pouco importa se a informação é falsa ou verdadeira, pois o seu propósito escapa dessa classificação. Muitas vezes sabem que é mentira, mas se o conteúdo cumpre o papel de arma política, então, fogo.

A questão que de fato tem chamado atenção é o comportamento dos usuários de mídias sociais que poderíamos chamar de “desavisados”. Aqueles que acreditam no conteúdo falso ou não encontram motivos para duvidar e simplesmente repassam as mensagens. Estudos do campo da psicologia social têm encontrado evidências de que esse comportamento está associado à baixa habilidade cognitiva. A habilidade cognitiva poderia ser resumida como a capacidade de desenvolvermos processos mais profundos de raciocínio, lembrança e resolução de problemas.

Para os pesquisadores Jonas De keersmaecker e Arne Roets, da Universidade da Ghent, da Bélgica, a capacidade cognitiva se relaciona também à nossa maior ou menor habilidade para fazer ajustes na nossa percepção e, com isso, evitar atitudes negativas sobre pessoas ou acontecimentos. Publicado na revista Intelligence, o estudo ‘Fake news’: Incorrect, but hard to correct é o resultado de um experimento feito pelos dois pesquisadores com 390 pessoas. Elas receberam informações sobre uma personagem fictícia chamada Nathalie. A mensagem dizia que Nathalie era enfermeira, traficava drogas e já tinha sido presa por tráfico. Em seguida, o grupo foi convidado a responder uma série de questões que avaliavam a personalidade de Nathalie.

Na sequência, os pesquisadores aplicaram testes de habilidade cognitiva no grupo. Na terceira fase, o grupo experimental foi avisado que as informações sobre Nathalie eram falsas. Essa informação levou a uma queda substancial na avaliação negativa sobre a personagem fictícia. A questão que os pesquisadores passaram a investigar era como a habilidade cognitiva interferia no ajuste de percepção dos participantes. Eles descobriram que aqueles com alta capacidade cognitiva mudaram de forma mais consistente a sua percepção sobre Nathalie, enquanto aqueles com baixa capacidade cognitiva tiveram mais dificuldade de fazer o ajuste da sua percepção sobre a enfermeira. Ou seja, nesse segundo grupo, as informações falsas continuaram afetando a atitude negativa em relação à Nathalie, mesmo após serem avisados que tudo era falso.

Segundo o David Z. Hambrick, professor do departamento de Psicologia de Michigan, uma possível explicação para esse comportamento baseia-se na teoria de que a capacidade cognitiva de uma pessoa reflete quão bem ela pode regular o conteúdo da memória para processar informações. Hambrick escreveu um artigo no mês passado na revista Scietific American, em que analisa os resultados da pesquisa de keersmaecker e Roets. De acordo com Hambrick, algumas pessoas são menos capazes de descartar (ou “inibir”) informações de sua memória que não são mais relevantes para a tarefa que estão realizando – ou, como no caso de Nathalie, informações que foram desacreditadas.

“Pesquisa sobre envelhecimento cognitivo indica que, na idade adulta, essa capacidade diminui consideravelmente com o avançar da idade, sugerindo que os adultos mais velhos também podem ser especialmente vulneráveis a notícias falsas”, diz Hambrick

Hambrick lembra ainda que outra razão pela qual a capacidade cognitiva pode predizer vulnerabilidade a notícias falsas é que ela se correlaciona altamente com a educação . “Através da educação, as pessoas podem desenvolver habilidades metacognitivas – estratégias para monitorar e regular o próprio pensamento – que podem ser usadas para combater os efeitos da desinformação”.

Os estudos no campo da psicologia e que analisam a questão das notícias falsas sugerem, portanto, que a habilidade cognitiva é um fator capaz de explicar por que algumas pessoas pensam duas vezes antes de compartilhar um conteúdo que consideram duvidoso e outras que compartilham sem pensar muito nisso. Essa talvez seja um explicação sobre o comportamento dos usuários de mídias sociais que chamamos de “desavisados”. Aqueles que replicam as mensagens sem preocupação se o seu conteúdo é falso ou verdadeira. Nesse grupo, há um risco de que continuem compartilhando informações falsas mesmo quando recebem mensagens que desmintam o conteúdo que compartilharam.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s