Como um post sobre casamento gay desencadeia forte reação no Facebook

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Como em outros países, mídias sociais no Brasil têm sido usadas também por grupos interessados em disseminar ódio, racismo e preconceitos de toda ordem. O grau de abertura dessas plataformas e o seu dinamismo permitem que esses grupos atuem de forma mais coordenada para tornar público seus argumentos e mobilizar seguidores que se identificam com suas bandeiras.

Se antes eles eram quase despercebidos ou sequer tinham voz nos espaços de conversação pública, agora atuam abertamente. Essa visibilidade levou críticos a considerar que a internet permite que uma “legião de imbecis” passem a ter voz. Outros, contudo, argumentam que essa visibilidade não é necessariamente ruim. Só com mais visibilidade podemos identificar e combater o ódio e o preconceito latentes na sociedade.

Mais de 60% de comentários negativos

No domingo (11/03), o jornal O Globo publicou uma matéria sobre o casamento de duas mulheres no Copacabana Palace. Entre domingo e segunda (12/03), o jornal replicou matérias sobre o assunto em sua página no Facebook, desencadeando uma forte reação dos usuários da mídia social. O post do jornal publicado na segunda-feira (Priscila e Roberta, as noivas do Copacabana Palace: ‘Realizamos o sonho de toda mulher’) gerou mais 4 mil engajamentos, e mais de 1 mil comentários, segundo os dados extraídos por este blog até terça (13/03).

Uma análise desses comentários revela o quanto temas mais sensíveis para os usuários das redes, como casamento entre pessoas do mesmo sexo, são capazes de ativar um volume considerável de críticas, muitas delas recheadas de raiva, mas também de elogios e declarações de apoio ao casal ou ao direito de poderem viver sob o mesmo teto.

Entre os 1.059 textos publicados pelos leitores no post do jornal, 596 eram replies a 483 comentários únicos. Analisei todos os comentários desse último grupo e classifique cada declaração como “positiva”, quando procuraram elogiar a iniciativa das duas mulheres; “negativa”, com críticas ao casamento, e um terceiro grupo, que chamei de “indefinido”. Este último, com 126 registros, reúne comentários de leitores sem uma direção muito clara de crítica ou elogio; também faz parte desse conjunto textos que apresentaram comentários de outros assuntos, sem um vínculo direto com o post. Por conta disso, não considerei nesta análise esse último grupo.

O comentário positivo com o maior número de engajamento foi postado por uma leitora que elogiou a decisão das duas noivas (“Duas noivas bem bonitas e chiques numa festa requintada…”). O comentário de Marlene Medeiros teve mais de 700 reações, e 121 replies. Outra leitora criticou a frase da entrevistada (“Eu nunca sonhei casar com outra mulher”) teve 593 reações e 148 replies. Muitos comentários negativos traziam críticas ao conteúdo da reportagem ou críticas explícitas ao casal.

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A classificação dos comentários dos leitores ao post do jornal indica que a maior parte do conteúdo teve conteúdo negativo (61%), ou seja, críticas diretas e, muitas vezes, bem deselegantes ao casal de noivas. A classificação por gênero demonstra que os homens foram os que mais reagiram negativamente ao casamento das duas mulheres. Entre as mulheres, houve um maior equilíbrio entre comentários positivos (52%) e negativos (48%). Em muitas passagens dos comentários há referências à bíblia, a Deus ou à impossibilidade de um casamento entre duas mulheres ser “considerado natural”.

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Três tipos de argumentos mais comuns no combate ao casamento gay

Além de classificar os conteúdos, procurei entender como os comentários do público se associavam considerando as palavras mais usadas. Com o uso de um software de análise de texto, extraí o conteúdo dos comentários negativos e produzi um gráfico que apresenta um ramo de palavras mais associadas e os seus grupos. Esse tipo de análise ajuda a entender um pouco mais como os leitores mobilizaram seus argumentos.

Como é possível ver na imagem em vermelho abaixo, os comentários negativos tiveram uma forte associação entre as palavras “não” e “mulher”. Muitas vezes foram críticas à frase de uma das noivas de que “realizaram o casamento de muita mulher”. Os comentários negativos se colocaram contra essa declaração e, em seguida, buscaram apresentar avaliações negativas da decisão das duas mulheres de se casarem. Nos dois grupos de palavras “não” e “mulher” estão outras muito usadas pelos críticos, como “Deus”, “homem”, “macho”, “aranha” e “noivo”.

negativo

Os comentários positivos que, como observado anteriormente, foram em menor número, procuraram quase sempre elogiar a decisão das duas mulheres de se casarem. A maior associação é entre “feliz”, “felicidade” e “não”, usado aqui no sentido de não ver problema algum na união das duas mulheres.

positivo

Os dois conjuntos de palavras e a leitura dos comentários extraídos do post do jornal permitem identificar os seguintes grupos de argumentos.

Orientação religiosa: nesse grupo, os argumentos procuraram mobilizar aspectos religiosos, como a palavra de Deus ou da Bíblia para definir o que é um casamento e como ele deve ser.

Natureza biológica: os argumentos nesse grupo procuraram enfatizar diferenças biológicas entre homens e mulheres, acentuando, assim, que casamento, por natureza, só pode ser entre homem e mulher, porque somente assim é possível procriar. Muitas vezes esse argumento foi mobilizado com aqueles de natureza religiosa.

Mulher como objeto sexual: os argumentos desse grupo procuram enfatizar aspectos relativos à relação sexual. Usam do deboche e de termos pejorativos para classificar a relação entre as duas mulheres. Algumas vezes recorreram também ao argumento de natureza biológica, aquele que prega que sexo é biologicamente definido para ser realizado apenas entre homens e mulheres.

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