Estudo define seis tipos de “fake news”

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O tema é recorrente por aqui e, certamente, deverá ocupar muito espaço nos próximos meses na imprensa. As chamadas “fake news”, ou notícias falsas, têm sido analisadas de diferentes formas desde a eleição de Donald Trump em 2016. Seriam um fenômeno realmente novo? Qual a sua relação com as tecnologias digitais de comunicação? O que dizer do papel da audiência na validação dessas “notícias”? Qual o seu impacto num processo eleitoral?

São inúmeras as perguntas que mobilizam o campo político, leitores e pesquisadores. Volta e meia surgem estudos que apresentam evidências sobre a dimensão do impacto das “fake news”, ou mesmo como esse fenômeno pode produzir efeitos negativos sobre a democracia. A mais recente pesquisa, no entanto, buscou algo mais simples. Edson Tandoc Jr., Zheng Wei Lim e Richard Ling publicaram um artigo na revista Digital Journalism em que procuram definir as categorias de fake news.

O estudo se baseou em um mapeamento de pesquisas acadêmicas publicadas entre 2003 e 2017 e que utilizaram o termo fake news. O levantamento indicou a existência de seis tipos de fake news: notícia como sátira, notícia como paródia, manipulação de fotos, propaganda e relações públicas, notícia como publicidade e, finalmente, notícia fabricada, o tipo mais discutido e comentando nos últimos anos.

Como a notícia falsa tem relação com os fatos noticiados e o objetivo dos seus produtores, os pesquisadores propõem ainda um quadro comparativo entre o nível de facticidade das “notícias”, ou seja, o quanto elas estão baseadas em fatos reais, e o grau de intenção dos autores de enganar a audiência. Além do mapeamento do termo, o quadro é uma contribuição bastante interessante. Antes de apresentá-lo, porém, eis as seis categorias de fake news que os autores identificaram.
Sátira como notícia: são notícias que focam no humor e no exagero como forma de envolver a audiência. Estão presentes, principalmente, nos programas de humor que, muitas vezes, tratam de assuntos sobre política, economia ou temas sociais. Apesar dessa característica, esse tipo de fake news quer promove o riso e o exagero a partir de eventos verdadeiros. Ou seja, essas “notícias falsas” seriam definidas muito mais em função do tratamento e do formato que são apresentadas do que em relação ao seu conteúdo.
Paródia como notícia: são “notícias” que também buscam o humor como forma de engajar a audiência, mas, ao contrário das notícias como sátira, essa categoria lida com conteúdo não factual para se promover. Ou seja, o conteúdo da paródia em forma de notícia é normalmente fabricado.
Notícia fabricada: são “notícias” que se baseiam em assunto sem base factual, no entanto, são apresentadas no estilo narrativo dos veículos de imprensa. Diferentemente da paródia, não existe um entendimento implícito entre o autor e o leitor de que o conteúdo da notícia é falso. O produtor desse tipo de conteúdo tem uma intenção clara de promover desinformação. A maior dificuldade para o público em geral para detectar esse tipo de notícia refere-se ao fato de que elas operam com categorias do jornalismo profissional, dando a entender se tratar de um conteúdo confiável. Cores, tipologia, forma de narrar o acontecimento e outros elementos visuais são usados para reproduzir o formato usado pela imprensa profissional.
Manipulação de foto: fake news usam recorrentemente a manipulação de fotos e vídeos para dar veracidade a suas narrativas. A manipulação de imagem tem sido crescente em função do acesso a ferramentas de compartilhamento e edição. A manipulação vai da saturação de cores à inclusão ou exclusão de elementos da imagem.
Publicidade e relações públicas como notícia: São notícias que, aparentemente, têm o mesmo formato de um conteúdo produzido pelo mainstream jornalístico, mas, na verdade, são feitas por empresas de publicidade ou de relações públicas que buscam promover clientes e/ou produtos. Utilizam entrevistas, estatísticas, fotos e outros elementos como forma de legitimar-se como conteúdo jornalístico. Esse tipo de conteúdo pode, muitas vezes, aparecer em espaços pagos na página online de veículos tradicionais de imprensa. Apresentam cores, tipologia e formato muito semelhantes ao de uma notícia verdadeira, o que pode incentivar os leitores a clicarem no conteúdo. Embora esse tipo de “notícia” busque se basear em um fato verdadeiro, sua abordagem quase sempre é incompleta, porque tende a apresentar apenas um aspecto do evento ou fato, normalmente o aspecto que ajuda a promover um produto ou cliente das empresas de publicidade
Notícia como propaganda: se refere as notícias que são criadas por uma entidade política com o objetivo de influenciar a percepção do público sobre o governo, organizações e lideranças. É o tipo de conteúdo que, muitas vezes, aparece também no formato discutido anteriormente (publicidade e relações públicas). Esse tipo de notícia também se baseia em eventos factuais, mas buscam promover apenas um lado ou um tipo de perspectiva sobre um evento, instituição ou liderança. Normalmente, a promoção de um lado da questão ou de determinada perspectiva aparece nos comentários dos entrevistados, alguns deles pagos para publicar comentários favoráveis a determinada instituição ou governo.

FACTICIDADE E INTENÇÃO DE ENGANAR

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Para os autores de “Definindo fake news”, as notícias falsas podem ser analisadas segundo duas dimensões: o grau de facticidade do seu conteúdo e a intenção do produtor da notícia.

A facticidade se refere ao grau com as fake news lidam com fatos reais. Uma sátira se refere a um fato real mas alterando o formato de apresentação, enquanto as notícias como paródia e as notícias fabricadas tratam de diferentes temas sociais buscando alterar a sua facticidade. Por outro lado, as notícias como publicidade usam apenas parte dos fatos reais, enquanto notícias fabricadas não estão amparadas em fatos reais.

A segunda dimensão é a intenção do autor das notícias falsas. Essa dimensão se refere ao grau com que os autores procuram enganar a audiência. Exemplo, os autores de sátiras e paródias lidam com um nível parecido de entendimento sobre a natureza do seu trabalho, uma vez que a sua intenção imediata é provocar humor. Esse tipo de fake news assume que o seu verdadeiro trabalho não é produzir notícia, mas humor. Por outro lado, autores da categoria notícia fabricada pretendem enganar sem qualquer aviso prévio, isto é, o seu formato busca, na verdade, espelhar o modelo da mainstream da imprensa, embora apresentem conteúdo sem base em fato real.

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Referência

Edson C. Tandoc Jr., Zheng Wei Lim & Richard Ling (2017): Defining “Fake News”, Digital Journalism, DOI: 10.1080/21670811.2017.1360143

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