Como se associam dados de violência e ganhos eleitorais no Rio e no Brasil

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A decisão do Governo Federal de intervir na segurança no Rio tem sido fortemente criticada por aqueles que entendem que a ação teve como principal motivação o calendário eleitoral. Como estava na eminência de ver fracassada a tentativa de aprovar a reforma da Previdência, o presidente Michel Temer teria buscado substituir a agenda por outra que possa render frutos eleitorais.

Ora, não há novidade alguma em dizer que um agente político busca benefício eleitoral com suas ações. Sequer pode ser tratada como uma grande revelação a estratégia do Governo de controlar a agenda. Talvez o ponto que de fato mereça atenção é analisar se uma intervenção militar é capaz de reduzir os índices de criminalidade do Rio a longo prazo. Mas isso cabe aos que estudam e acompanham o assunto analisar.

Neste post, trato da relação entre índices de criminalidade e ganhos eleitorais, para testar a hipótese de que enfrentar a violência pode render votos. Em primeiro lugar, não há um dado preciso que permita identificar com clareza esse relação.  Como há muitas  variáveis atuando simultaneamente com os índices de criminalidade e eleições, a interpretação dos dados precisa sempre de muita cautela.

Vale dizer também que os ganhos ou prejuízos eleitorais por uma ação política dependem do grau de responsabilização dos agentes políticos. Pode haver boa ou má política, mas se isso não for explorado politicamente, seus efeitos tendem a se pulverizar ou a competir com outras agendas na cabeça do eleitor.

Quando consideramos as taxas de homicídios do Brasil, no ano da eleição presidencial, não parece haver relação alguma com a eleição de candidatos de situação ou oposição.

Para o nosso propósito, calculei as taxas de homicídios por 100 mil habitantes, segundo as classificações utilizadas no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde entre 1996 e 2016. Nesse período, tivemos cinco eleições nacionais.  Os candidatos eleitos para o governo do Rio e para a Presidência da República foram classificados como “governo” e “oposição”.

Trata-se, portanto, de uma leitura muito simples. Se os índices de criminalidade forem de fato relevantes no cálculo dos eleitores, estes tendem a eleger candidatos da oposição quando os índices estão altos. Inversamente, se os índices estão relativamente baixos, os eleitores preferem candidatos da situação (governo). Como disse, é uma leitura dos dados e do cálculo eleitoral extremamente simplificada e, portanto, precisa ser vista sempre com cautela, já que não controlei outros eventos e outras variáveis, como a economia, por exemplo, que interfere no cálculo do eleitor. Também não considerei a variação das taxas de homicídios dentro do período de governo, que pode ser levada em conta pelos eleitores. Levei em conta apenas as taxas no ano da eleição.

Os dados sugerem o seguinte. Quando consideramos as taxas de homicídios do Brasil, no ano da eleição presidencial, não parece haver relação com a eleição de candidatos de situação ou oposição. A média das taxas de homicídios nos anos em que foram eleitos candidatos da oposição é muito próxima da média dos anos em que foram eleitos candidatos da situação.  Importante ressaltar, porém, que há apenas um ano na série com eleição de candidato a presidente de oposição, no caso, Lula, em 2002.

presidente1

No caso específico do Estado do Rio, contudo, parece haver alguma associação. Na série considerei candidatos a presidente mais votados no Rio (situação ou oposição), mas que não necessariamente foram eleitos presidentes (Lula em 1998 e Garotinho em 2002, ambos de oposição). Os resultados indicam que a taxa média de homicídio é maior nos anos em que candidatos de oposição venceram no Rio quando comparada com os anos em que candidatos da situação tiveram mais votos no estado.

presidente3

Quando consideramos a eleição de governador do Rio e a taxas de homicídios no Estado também encontramos associação. Nesta série, porém, temos apenas um ano de eleição de candidato de oposição, em 1998, quando Anthony Garotinho venceu a disputa. Desde então, o grupo do PMDB, liderado pelo ex-governador Sérgio Cabral, venceu todas as disputas.

governador1

 

O Rio está mais violento?

Com outra base de dados, agora da taxa de mortes violentas intencionais, calculada pelo Fórum Brasileiro de Segurança, criei dois gráficos para observar se há alguma inflexão na criminalidade do Rio.

As duas séries mostram que, entre 2014 e 2015, o Rio havia reduzido em 12,9% a taxa de mortes violentas. Já no período de 2015 para 2016 vemos que houve um aumento expressivo de 24%. Foi a terceira maior variação no país.

Apesar disso, a taxa do Rio (37 casos para 100 mil hab) ainda é inferior a de estados como Alagoas (55/100 mil hab), Paraíba (50/100 hab) e Pernambuco (47,6/100 hab). Na Região Sudeste, porém, o Rio registra a maior taxa.

mortas violentas

 

Os dados demonstram, portanto, que, na média,  não parece haver relação entre altas taxas de homicídios no Brasil e eleição de candidatos de oposição. Essa relação só parece existir quando consideramos as taxas de homicídios do Rio, mesmo assim, não é certo apenas e exclusivamente em função das taxas de criminalidade.

Como sabemos, há diversas outras variáveis que interagem com o cenário eleitoral, afetando a decisão dos eleitores. Por outro lado, para lucrar eleitoralmente, o governo precisa ser associado aos benefícios da ação. Isto se eles de fato surgirem, porque nada diz que não possa haver fracasso, gerando efeito prejuízo, e não benefício eleitoral.

Em relação aos dados da criminalidade no Rio, os dados do Fórum Brasileiro indicam que há um processo de inflexão das taxas de homicídios no Estado. Depois de anos de recuo, há uma tendência de aumento das taxas. Se isso explica a decisão do governo com relação ao Rio, não explica, contudo, a leniência em relação a estados com índices bem superiores aos do Rio.

Vamos acompanhar.

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