Aliadas ou inimigas? Como as mídias sociais têm impactado as democracias

Publicado por

pg.jpg

Desde a eleição do presidente Donald Trump, em 2016, tem crescido o debate sobre o impacto das mídias sociais na qualidade das democracias pelo mundo. Recentemente, o Facebook abriu espaço para publicar artigos de pesquisadores e também dos seus executivos sobre essa questão. Como, de que maneira, e com qual intensidade essa tecnologia, ou melhor, o uso que fazemos dessa tecnologia, tem afetado a qualidade das democracias?

Embora a resposta ainda não esteja muito clara, é possível encontrar esboços interessantes sobre o papel das mídias sociais. No fim de 2017, quatro pesquisadores americanos publicaram um artigo no Journal Democracy, infelizmente fechado para não assinantes, com quatro tópicos que eles consideram fundamentais quando discutimos o impacto dessas tecnologias.

Joshua Tucker, professor de ciência política da Universidade de Nova York, e seus colegas publicaram também um artigo no Washington Post, no qual sintetizam os seus argumentos. Em linhas gerais, eles afirmam que as mídias sociais deram voz a uma parcela significativa de cidadãos que não tinham acesso ao mainstream dos meios de comunicação. O segundo ponto é que, a despeito dessa maior diversificação de vozes, governos autocráticos têm buscado também formas para silenciar essas vozes. Algumas das velhas estratégias de censura, como dificultar o acesso a informações ou ameaçar os opositores, continuam existindo, mas agora convivemos também com o uso de bots e de trolls para influenciar e direcionar o debate no ambiente online.

Para Tucker e seus colegas, a ampliação da participação de novas vozes no debate público e o uso da tecnologia para militar ou deturpar as conversas online demonstram a complexidade do problema que está diante de nós. Na visão deles, as mídias sociais, em si, não deveriam ser classificadas como um instrumento inerentemente democrático ou não democrático, mas como uma arena onde os atores políticos competem por poder. No texto para o Post, eles apresentam quatro tópicos para demonstrar como essa arena tem sido ocupada.

O primeiro deles se refere ao que os pesquisadores chamam, em uma tradução livre, de “um novo acontecimento: a libertação tecnológica”. Eles observam que, em governos autocráticos, a tecnologia pode ser uma importante aliada a favor da democracia. A pergunta que fazem é: quem, nos países autocráticos, têm sua participação limitada no mainstream da mídia? Resposta: aqueles que representam as forças pró-democráticas. Ou seja, em países com governos autocráticos, as mídias sociais ajudam a oposição e a população a trocar informações e se unirem para atuar em conjunto. Nesse caso, a tecnologia seria uma aliada para resolver um problema de ação coletiva dos grupos pró-democracia.

O segundo ponto abordado pelos autores se refere ao que chamam de “o império retrocede: a repressão tecnológica”. Governos autocráticos recorrem à tecnologia para perseguir, restringir ou direcionar o debate online. Nesse caso, eles buscam formas off-line “de intimidar ou atacar ativistas da oposição, mudar a estrutura de propriedade das empresas de mídia ou ajustar as leis de responsabilidade, que o usuário das redes sociais nunca pode ver diretamente”. Esses governos também passaram a usar sofisticadas tecnologias para influenciar o debate online, modificando ou direcionando sua dinâmica.

O terceiro ponto classificado como “o retorno das forças anti-sistema”, os autores lançam uma questão intrigante. Quem costuma estar fora do mainstream da mídia nos regimes democráticos? Segundo ele, os grupos mais progressistas, bem como os grupos anti-sistema que se opõem radicalmente ao modelo de democracia liberal, como os nacionalistas e os neo-nazistas. Assim como os movimentos progressistas, esses grupos têm utilizado as mídias sociais para mobilizar admiradores. Nesse caso, a tecnologia passou ser um recurso igualmente poderoso nas mãos dos radicais porque também ajuda a reduzir o custo da ação coletiva para combater a democracia e seus valores.

“(…) enquanto os autocratas aplicam essas ferramentas para combater a oposição ao regime, nas sociedades democráticas, atores anti-sistema podem aproveitar essas ferramentas para atacar adversários políticos, defensores da democracia e até mesmo valores e normas democráticas (…)”

O quarto e último ponto discutido pelos autores trata-se, na verdade, de segunda pergunta: “restringir a tecnologia?”. Nesse tópico, eles questionam como as sociedades democráticas vão regulamentar o uso das tecnologias para limitar essas ameaças. Na visão dos autores, é preciso uma compreensão profunda de como as mídias sociais podem ser consideradas uma ameaça ou uma oportunidade para fortalecer as democracias. “As democracias devem estar conscientes de que qualquer tentativa de regulamentar a Internet pode se aproximar perigosamente da censura” hoje existente nos regimes autocráticos. “Não é por acaso que a Rússia foi uma das primeiras a copiar a nova lei alemã multa as empresas de redes sociais que não conseguem restringir adequadamente o discurso de ódio”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s