“Fake news”: muito barulho para pouco alcance?

Publicado por

Publiquei recentemente aqui o que chamei de “duas hipótese para o efeito das fake news num período eleitoral”. Basicamente, tratei do nível de engajamento dos eleitores mais interessados em notícias sobre política e aqueles menos engajados, além do momento da decisão política do eleitor. O modelo é bem simples.

Eleitores mais engajados têm um sistema de crença política bastante consolidado, o que os  levam a ignorar a validade das informações. Ou seja, esse grupo é muito ativo na disseminação de informações (verdadeiras ou não) que desqualificam adversários políticos, assim como se empenham em propagar informações falsas ou verdadeiras mas positivas a favor do seu candidato de preferência.

fakenews

Já os eleitores menos engajados são menos envolvidos com as informações políticas, logo, são eleitores que, em tese, estão mais suscetíveis a tomarem decisões baseadas em uma fake news porque têm um sistema de crença política menos consolidado. Essa afirmação, contudo, contrasta com o fato de que esse grupo também está mais aberto a duvidar de uma fake news porque está mais propenso a considerar as informações alternativas, além do fato de que são eleitores que não estão com suas atenções voltadas para o noticiário político.

Pois bem, esta semana foi publicado, nos Estados Unidos, a pesquisa “Selective Exposure to Misinformation: Evidence from the consumption of fake news during the 2016 U.S. presidential campaign”. O estudo traz algumas evidências que confirmam parte do modelo que discuti, e também sugere novas questões para a hipótese do impacto das fake news.

Segundo Andrew Guess, Brendan Nyhan e Jason Reifler, apesar de muita gente falar de fake news, o consumo desse tipo de “informação” é muito restrito aos grupos dos eleitores politicamente mais interessados. O volume de informações falsas consumidas por todos eleitores representou apenas 2,6% do total de informações acessadas pelos americanos no período eleitoral.

De acordo com o estudo, o consumo de fake news esteve também mais associado aos eleitores de Trump. Outra conclusão do estudo é o baixo efeito dos checadores de fatos disseminados pelas fake news. Segundo os pesquisadores, eleitores engajados tendem acompanhar um pouco mais os sites dos checadores (efeito interesse por assuntos políticos), enquanto os pouco engajados acompanham menos do que se imaginava. No geral, o impacto dos sites de checadores ficaria abaixo do esperado. Veja algumas conclusões da pesquisa.

pesquisa_fakenews

1-  Aproximadamente 1 em cada 4 americanos visitou um site de notícias falsas no período da pesquisa em 2016. O que não é pouca coisa.

2 – Apesar disso, o volume de informações falsas representou apenas 2,6% do total de informações consumidas pelos americanos durante o período da pesquisa.

3 – Os apoiantes de Trump visitaram mais os sites de notícias falsas que eram fortemente pró-Trump. Eles eram quase três vezes mais propensos a visitar sites de notícias falsas do que os eleitores de Hillary Clinton.

4 – Apesar de quase um quartos dos americanos terem visitado ao menos uma vez um site de notícias falsas, essas informações representaram apenas 6% do volume de informações consumidas entre os eleitores de Trump e 1% entre os eleitores de Hillary.

5 – O consumo de notícias falsas foi fortemente concentrado em um pequeno grupo de americanos. Quase 6 em cada 10 visitas a sites de notícias falsas vieram de 10% das pessoas com os hábitos de consumo de informação online mais conservadoras.

6 – O Facebook foi um vetor-chave de exposição a notícias falsas;

7 – Os site de verificações de fatos de notícias falsas quase nunca chegaram aos consumidores menos engajados.  Apenas cerca de metade dos americanos que visitaram um site de notícias falsas durante o período de estudo também viu alguma verificação de fato de um dos sites dedicados a esse tipo de trabalho (14,0%). Em contraste, 11,3% leram um ou mais artigos de verificação de fatos e nenhuma notícia falsa; 13,3% leram um ou mais artigos de sites de notícias falsas e nenhum artigo de verificação, e 61,4% não fizeram nada disso.

8 – Em geral, o consumo de notícias falsas parece ser um complemento, ao invés de ser um substituto das outras notícias.  As visitas a sites de notícias falsas são mais altas entre as pessoas que já consomem o noticiário comum, e não diminuem de forma significativa entre os indivíduos mais bem informados politicamente.

9 – Americanos acima de 60 anos buscaram mais sites de notícias falsas.

Ou seja, as evidências do estudo sugerem que o modelo que discuti no post anterior tem alguma validade. O consumo de informação falsa é menor do que se imagina e, além disso, está restrito aos mais engajados. Chama atenção, porém, o baixo impacto do processo de autocorreção das informações falsas. 

Serão necessários novos estudos para confirmar as conclusões do estudo, já que os pesquisadores não consideraram o consumo de notícia pelos celulares, nem como um eleitor pode desacreditar de uma informação falsa quando é informado por outro eleitor de que se trata de uma fake news

Acho esse ponto importante de ser avaliado porque o processo de correção das informações não depende da busca dos eleitores menos engajados. Como são menos envolvidos com essas informações, eles dependem de outros estímulos para corrigir ou desistir de uma informação falsa. Portanto, é esperado que eles se envolvam menos com as fontes alternativas ou os sites de checagem.

Um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s