O dia em que vi um eleitor com uma camisa pró-Bolsonaro

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Estávamos no primeiro trimestre de 2002, com a pauta das eleições presidenciais já fazendo parte das rodas de conversa dos brasileiros, quando um amigo, que tem uma certa sensibilidade política e era também declaradamente anti-Lula, relatou o que ele havia visto em pequenas cidades do interior do Brasil. Para ele, Lula seria eleito em outubro daquele ano porque os “ventos estavam soprando nessa direção”. Esse amigo fez essa afirmação depois de contar ter testemunhado brasileiros simples, gente pobre, mulheres, jovens, entre outros, apresentarem orgulhosos adesivos em referência ao então candidato do PT. “Lula está na boca e no sentimento do povo”, disse ele.

O processo de “contágio” das preferências eleitorais, que as pesquisas de opinião tentam capturar, acontece quando expressar publicamente uma vontade eleitoral deixa de ser motivo de preocupação com possíveis críticas, para se transformar em algo que, de certa forma, expressa orgulho. Não é possível, com isso, fazer qualquer inferência sobre o resultado de uma eleição, a não ser em conversas de botequim, mas esse é um fenômeno, sem dúvida, que todo candidato tem interesse que seja desencadeado. E é também um fenômeno que desperta o interesse de qualquer observador. Quais fatores pavimentam essa disposição para expressar, sem medos ou vergonha, uma preferência eleitoral?

Guardadas as devidas proporções, já que o fenômeno hoje está distante algumas léguas do que presenciamos em 2002, vi um eleitor com uma camisa pró-Bolsonaro. Não tenho nenhum talento para fazer avaliação da escolha eleitoral de quem quer que seja. Claro que isso não me impede de estimar alguns (graves) prejuízos institucionais com a eleição de um candidato com o perfil do capitão do Exército. Mas, no momento, estou mais interessado em compreender as preferências por Bolsonaro.

De início, é preciso dizer que uma preferência eleitoral agregada é justamente isso: um agregado de razões por este ou aquele candidato. Para mim, suas intenções de voto, se pudessem ser desagregadas, reuniriam três grandes grupos de sentimentos, desejos e percepções. Nenhum eleitor, claro, é uma coisa ou outra, mas uma mistura de histórias, visões de mundo, conhecimento e desconhecimentos.

Mas acho que, no caso atual, podemos resumir a escalada pró-Bolsonaro em três grupos. Eles não nasceram em um vácuo. São produto do contexto político que vivemos: um forte sentimento anti-corrupção associado a uma escalada da agenda conservadora e diante do enfraquecimento do campo político de Centro e de Esquerda.

Família militar: Parte da preferência por Bolsonaro vem de uma identificação de grupo. Sua história militar desperta expectativas, valores e maneiras de ver o mundo que permeiam a comunidade militar. Não estou dizendo que todos os militares preferem Bolsonaro porque ele é militar. Estou dizendo que há um processo de identificação entre a comunidade militar e um candidato que é vinculado a essa comunidade.

Juventude radicalizada à direita: Muitos desses jovens estavam nas manifestações de 2014 e 2015. São os “revolucionários online”. Tendem a ver em Bolsonaro uma espécie de mito, o “homem com coragem” para falar e fazer as coisas “necessárias” para “consertar o Brasil”. São eleitores bastante motivados com os 16% de intenções de voto de Bolsonaro. Eles atuam diariamente nas mídias sociais combatendo as críticas ao candidato do PSC, como também buscando enaltecer suas falas. Fazem vista grossa para qualquer fala mais radical de Bolsonaro. Acham até divertido porque ele procura reduzir o espaço do “esquerdismo”.

Antipetistas e antipartidaristas: Um terceiro grupo de eleitores que hoje preferem Bolsonaro é formado por antipetistas e antipartidaristas.  Não só não toleram o discurso lulista, como odeiam os partidos, a classe política e tudo mais que venha de Brasília. Muitas vezes relacionam seu sentimento com o argumento sobre a situação da violência, desemprego, caos social etc (“Olha a que ponto chegamos”), outras vezes não conseguem expressar direito seu sentimento porque ele é difuso para toda a classe política.

Nesse grupo precisamos considerar gradações de intolerância. Há os eleitores intolerantes radicais, que não aceitam ou não estão disposto a ouvir qualquer consideração sobre a engenharia da política e suas dificuldades etc. Há os menos intolerantes, mas nem por isso menos antipetistas ou antipartidaristas. E há o terceiro segmento que não se vê, nem se comporta como intolerantes, mas “está cansado de tudo isso aí”.

No grupo dos antipetistas e antipartidaristas, estão eleitores que votaram em Aécio em 2014 e se decepcionaram. Há também um grupo menor de ex-eleitores de Lula e Dilma, mas que nunca foram petistas de carteirinha. Votaram porque achavam que era melhor “naquele momento”. E há ainda os eleitores que nunca “toleraram” os políticos porque são “todos corruptos”. Para esse grupo, portanto, eleger Bolsonaro não muda nada do “que já é muito ruim” e, quem sabe, “com ele podemos tentar algo radicalmente diferente”.

É claro que as duas categorias anteriores (Família Militar e Jovens radicalizados à direita) também são movidos pelo sentimento antipetista e antipartidarista, mas preferi separar esse terceiro grupo porque nem todo antipetista ou antipartidarista é jovem ou vinculado à família militar.

 

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