“As cinco últimas eleições nacionais resultaram em elitização e envelhecimento da elite política”

Publicado por

Emerson Cervi*

A capacidade preditiva da ciência política sempre foi um problema para politólogos empiricistas. Isso porque o número de fatores que interferem sobre um fenômeno é tão grande e, principalmente, porque na ciência política um resultado tem efeito sobre os seus preditores. Assim, nós temos mais segurança quando trabalhamos com “posdição” do que predição propriamente dita.

Um exemplo é a “posdição” de que na América Latina, na década passada, enquanto a maior parte dos países passava por um giro à esquerda em suas eleições presidenciais, havia uma giro à direita nos resultados para os parlamentos nacionais. Não foi predito, mas já temos dados suficientes para “posdizer” que os presidentes de esquerda foram acompanhados por parlamentares de direita, o que resultou em uma espécie de equilíbrio sub-ótimo dos sistemas representativos da América Latina.

No Brasil, as cinco eleições nacionais entre 1998 e 2014, resultaram em uma elitização e envelhecimento da elite política nacional. Se considerarmos todos os candidatos para os quatro cargos de representação (deputado estadual, federal, senador e governador), nosso eleitos no período de governos nacionais de esquerda foram cada vez ficando mais velhos e mais ricos. É o que apontam as informações do repositório de dados eleitorais do TSE.

Em relação ao dinheiro, criamos uma plutocracia na última década

No período de 1998 a 2014 tivemos cinco eleições nacionais. Na primeira delas o Brasil contou com cerca de 15 mil candidatos e na mais recente, pouco mais de 20 mil (desconsiderando os que foram barrados pela justiça eleitoral ou desistiram ao longo da campanha). A cada eleição, cerca 25% dos concorrentes são repetidos, ou seja, disputaram a eleição anterior. E outros 75% são novos, ou melhor, não tinham participado da eleição anterior.

O perfil dos eleitos e não eleitos nas últimas eleições

Em relação ao dinheiro, criamos uma plutocracia na última década. O TSE disponibiliza a informação sobre o patrimônio declarado dos candidatos a partir de 2006. Então, para essa variável temos três eleições (2006, 2010 e 2014). O enriquecimento dos políticos com mandato no Brasil fica mais claro nas sequência dos três primeiros gráficos abaixo. Eles indicam a média e o intervalo de 95% de IC (o que exclui os outliers da representação) do patrimônio declarado por todos os candidatos que disputaram as últimas três eleições nacionais. As médias estão separadas entre candidatos derrotados e eleitos.

Em 2006 o patrimônio médio dos derrotados fica abaixo de R$ 1 milhão e dos eleitos acima de R$ 1,5 milhão. O intervalo entre os dois grupos se cruza, ou seja, era possível encontrar derrotados mais ricos com o mesmo patrimônio que os eleitos mais pobres. Isso deixa de acontecer em 2010, quando o patrimônio médio dos derrotados mantém-se abaixo de R$ 1 milhão. Mas a média dos eleitos se aproxima de R$ 2 milhões e os intervalos já não mais se tocam.

Emerson_2006

Emerson_2010

Emerson_2014

E em 2014 há o grande salto. Os derrotados continuam abaixo de R$ 1 milhão de média de patrimônio e os eleitos quase chegam a R$ 3 milhões, com uma variação maior. Apesar disso, os intervalos se distanciam ainda mais. Se considerarmos a inflação do período (os valores são os declarados em cada ano eleitoral), descobriremos que o valor médio do patrimônio dos derrotados caiu nessas três eleições, enquanto o dos eleitos apresentou crescimento.

É preciso considerar que a melhor qualidade no controle da justiça eleitoral e maior risco de punição tem “estimulado” os candidatos a fazerem declarações de bens mais “precisas”. No entanto, isso parece não valer para os derrotados. Além de criar uma geração de eleitos mais ricos, também temos representantes mais velhos. A sequência de gráficos abaixo mostra as médias de idade para todos os candidatos (linha tracejada), idade média dos derrotados e dos eleitos para as últimas cinco eleições nacionais (de 1998 a 2014). Aqui também são considerados todos os candidatos para os quatro cargos nacionais: deputado estadual, deputado federal, senador e governador. Veja como a idade média dos candidatos apresenta uma tendência de crescimento entre 1998 e 2010, para se estacionar em 2014.

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A média dos derrotados passa de 45,6 anos em 1998 para 46,7 em 2014. Indicando um aumento de um ano em média, apenas. Já a média dos eleitos, sobe de 46,6 anos em 1998 para 49,3, ou seja, quase três anos a mais de média. No geral, os candidatos ficaram mais velhos, porém, os eleitos envelheceram mais no período. Em resumo, nos últimos 20 anos elegemos candidatos cada vez mais velhos e mais ricos. E não se trata de acompanhar o envelhecimento da sociedade, pois a distância da média dos eleitos para a média geral dos candidatos foi aumentando ao longo do tempo. E isso é o que tem caracterizado a classe política brasileira no período de amadurecimento após a redemocratização. Para o bem e para o mal.

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* Emerson Cervi é professor associado do Departamento de Ciência Política; professor permanente do programa de pós-graduação em Ciência Política e do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – Iuperj (2006). Possui estágio pós-doutoral em partidos e eleições na Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais- Espanha (Flacso-es)/Universidad Salamanca com financiamento Capes na modalidade de bolsa de estudos para estágio sênior no exterior (2015-2016). Mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (2002) e graduação em Comunicação Social Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1996). Coordena o grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública – Cpop (www.cpop.ufpr.br), com pesquisas e publicações nas áreas de debate e opinião pública, eleições, partidos, comunicação eleitoral, financiamento de campanhas e metodologia de pesquisa.

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