A crise do jornalismo segundo o poder de distribuição das mídias sociais

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Quem não leu ou não viu ainda, certamente já ouviu alguém falar. A crise do jornalismo ou, como muitos preferem, a crise do modelo de negócio do jornalismo, tem sido intensamente debatida nos últimos anos. Pode-se dizer que essa preocupação apresenta três fases. Até os anos 2000, não se falava em crise, mas em oportunidade. Na época, embora ainda com muita resistência inicial dos veículos, a internet era vista como uma aliada, uma plataforma para dar maior visibilidade aos conteúdos das empresas tradicionais.

Entre 2000 e 2010, os estudos vão mais ou menos identificando alguns problemas. Esse período coincide com a fuga dos anunciantes para plataformas online e uma queda mais visível dos assinantes dos meios tradicionais. Desde 2010, fala-se, de fato, em uma crise profunda do negócio do jornalismo. É nesse período que as mídias sociais acentuam a sua participação no mundo digital, mobilizando a atenção dos usuários e retirando das empresas jornalísticas o poder de distribuição de conteúdo. Sem controlar essa função, os veículos tradicionais perderam a capacidade de entregar para os anunciantes os consumidores que eles procuram.

 

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Em 2012, o estudo “O Jornalismo Pós-Industrial”, produzido pelo Tow Center For Digital Journalism, da Universidade de Columbia, tentou mapear o ecossistema da produção jornalística e suas mudanças após a virada para o mundo digital. Apontava-se ali algumas causas para a crise do modelo de negócio do jornalismo; as novas formas de financiamento; a produção de conteúdo digital, a crença na relevância do jornalismo para a democracia, entre outras questões. Este ano, Emily Bell, que liderou o estudo de 2012, publicou um novo levantamento, agora intitulado The platform press: how Silicon Valley reengineered journalism. Nesse novo trabalho, Bell e Taylon Owen, entrevistaram 70 editores, produtores e executivos de empresas de jornalismo do mundo digital e das empresas tradicionais.

O principal aspecto discutido é o peso das mídias sociais como distribuidoras dos conteúdos jornalísticos, sem que isso se reverta em ganhos financeiros para as empresas produtoras. Por outro lado, observa-se ainda a perda da capacidade de editar o conteúdo que os leitores têm acesso. Essa edição depende muito mais agora dos algoritmos do Facebook, Twitter, entre outros, sem que a sociedade saiba exatamente como esses mecanismos trabalham escolhendo o que terá ou não visibilidade na sua timeline. Há ainda uma forte influência do formato das mídias sociais, que privilegiam mais os conteúdos de baixa qualidade, mas que geram cliques, o que de algum modo tem forçado as empresas a repensarem sua produção. Veja a seguir algumas conclusões gerias:

No período de 20 anos, o jornalismo experimentou três mudanças significativas nos modelos de negócios e distribuição: a mudança do analógico para o digital, o aumento da rede social e agora o domínio do celular. Esta última fase, vemos as grandes empresas de tecnologia dominar os mercados de atenção e publicidade e forçando as organizações de notícias a repensar seus processos e estruturas (Emily Bell, 2017)

 

1 – As plataformas de tecnologia (Facebook Twitter, Google entre outros) se tornaram editoras em um curto espaço de tempo, deixando as empresas jornalísticas confusas sobre seu próprio futuro. Se a velocidade da convergência continuar, mais organizações de notícias deixarão de ter como atividade central a publicação (distribuição, hospedagem e monetização)

2 – A competição entre plataformas para lançar produtos para editores está ajudando as redações a atingir um público maior em relação ao passado. Mas as vantagens de cada plataforma são difíceis de avaliar e o retorno do investimento é inadequado. A perda de branding, a falta de dados do público e a migração de receita publicitária continuam sendo preocupações importantes para os editores.

3 – A influência das plataformas sociais molda o próprio jornalismo. Ao oferecer incentivos às organizações de notícias para tipos específicos de conteúdo, como vídeos ao vivo, ou ao ditar a atividade do editor através de padrões de design, as plataformas estão implicitamente exercendo uma atividade editorial.

4 – A questão das fake news que se tornou mais evidente nas eleições de 2016 obrigou as plataformas sociais a assumirem maior responsabilidade pelas decisões de publicação. No entanto, isso é uma distração da questão maior que a estrutura e a economia das plataformas sociais incentivam a disseminação de conteúdo de baixa qualidade. O jornalismo com alto valor cívico – jornalismo que investiga o poder, ou alcança comunidades marginalizadas – é discriminado por um sistema que favorece a escala e a capacidade de compartilhamento.

5 – As plataformas dependem de algoritmos para classificar e segmentar conteúdo. Elas não querem investir na edição feita por pessoas, para evitar o custo e a percepção de que os seres humanos são tendenciosos. No entanto, as nuances do jornalismo exigem um julgamento editorial, então as plataformas precisarão reconsiderar essa questão.

6 – É necessária maior transparência e responsabilidade das empresas da plataforma. Embora a notícia possa chegar a mais pessoas, a audiência não tem como saber como ou por que ela as alcança, como os dados coletados sobre elas são usados ​​ou como seu comportamento online está sendo manipulado. E os editores estão produzindo mais conteúdo, sem saber quem está atingindo ou como. Eles estão à mercê dos algoritmos.

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