Estudo mostra a atuação dos cabos eleitorais da era digital

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Há alguns anos, fazer campanha eleitoral se resumia a contratar cabos eleitorais, promover showmícios, distribuir santinhos, impregnar as ruas com faixas, cartazes e, para o desgosto de muitos, colocar carro de som nas ruas. O custo das campanhas e, sobretudo, a internet mudaram esse cenário. O modelo digital de campanha tem sido há algum tempo estudado por uma série de pesquisadores que tentam entender seus formatos, dinâmicas e efeitos.

A recente edição da Revista Compolítica, organizada pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Política, traz artigos bem interessantes sobre a relação entre política e comunicação, com destaque para o de Marcelo Alves, doutorando pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Marcelo tem se especializado desde o mestrado a minerar dados da rede para produzir estudos que nos ajudam a compreender o comportamento dos usuários das mídias sociais, em especial, aqueles envolvidos com a temática política. Em “Redes de campanha na eleição do Rio de Janeiro em 2016”, ele procura responder a uma pergunta aparentemente simples: “Quem faz campanha nas mídias sociais”. Os dados extraídos e analisados por Marcelo sugerem boas pistas sobre quem, afinal, são os novos cabos eleitorais das campanhas digitais, e como eles se empenham na disseminação das mensagens dos seus candidatos.

(…) A prática de militância de perfis simpatizantes é fundamental para propagar as mensagens e “coproduzir” o universo semântico, gerando um efeito de cauda longa que envolve potencialmente um público maior do que o dos candidatos e da imprensa (…)

Para fazer a análise, o pesquisador da UFF extraiu mais de 553 mil tweets durante o segundo turno das eleições municipais no Rio. Os resultados demonstram que os candidatos Marcelo Freixo (PSOL) e Marcelo Crivella (PRB) foram responsáveis por apenas 5% do conteúdo coletado. Foram encontrados 57.480 perfis que atuaram como militantes de Freixo e Crivella, entre eles, políticos profissionais, celebridades, blogueiros entre outros. Segundo o estudo, as redes de campanha formadas pelos militantes foram responsáveis por 68,6% dos tweets.

Com esses dados, Marcelo produziu ainda a rede dos apoiadores ou cabos eleitorais dos dois candidatos que interagiram com as mensagens. Na imagem, a mancha laranja se refere aos apoiadores de Freixo; em azul os apoiadores de Crivella; em cinza os tweets que não utilizam hashtags dos candidatos, mas participaram compartilhando mensagens sobre os candidatos. Repare que a rede de Freixo é muito expressiva, com um volume considerável de perfis que participaram ativamente na disseminação de mensagens do candidato.

marcelo

Segundo Marcelo, apesar de serem responsáveis por apenas 5% das publicações, na campanha digital, os “candidatos funcionam como uma espécie de eixo centralizador que arregimenta e define parte da linha do discurso eleitoral. O grau de centralidade da análise de redes indica que Freixo foi capaz de orientar sua militância com mais eficiência do que Crivella, tendo em vista a quantidade de retweets superior do psolista e utilização de hashtags mais concentrada. Nesse sentido, a prática de militância adere e se apropria dos discursos de campanha de forma mais coordenada”.

Uma síntese de algumas conclusões gerais do estudo.

  1.  Os candidatos são responsáveis por menos de 5% do fluxo
    total de conteúdo eleitoral no Twitter;
  2.  Já os militantes engrossam significativamente a disseminação das hashtags de campanha, com 68,6% das mensagens;
  3. Há considerável concentração e especialização de engajamento, com poucos perfis publicando mais frequentemente e tendo maior alcance e retweets;
  4.  Perfis que publicam mais vezes tendem a ser militantes de um dos candidatos;
  5. Apoiadores têm média de produção de tweets superior a não militantes;
  6. As redes de campanha Pró-Freixo e Pró-Crivella criam espaços de repercussão de informação política distintos entre si, propagando mensagens de
    fontes diferentes;
  7. Notícias da imprensa são apropriadas pelos militantes, de acordo com
    críticas aos pleiteantes – ademais alguns veículos de imprensa possuem posição de
    intermediação entre as redes dos candidatos;
  8. Além dos candidatos, celebridades (Camila Pitanga e Gregório Duvivier) e políticos fora do pleito (Bolsonaro e Jean Wyllys) têm papel fundamental na mobilização de seus seguidores na campanha.

 

 

 

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