Mídias sociais e comunicação direta ou a “democracia de público” radicalizada

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Talvez um dos estudos mais interessantes sobre a relação modelo de comunicação e campo político tenha sido feito por Bernard Manin. Em As metamorfoses do governo representativo”, publicado primeiro como ensaio e depois como um dos capítulos do livro “Princípios do governo representativo”, em 1997, Manin cunhou o termo “democracia de público” para classificar as democracias nas quais o personalismo passou a desempenhar um papel central na arena política.

Nesse modelo, as escolhas dos eleitores tendem a ser em pessoas confiáveis, dispensando a mediação dos partidos; há uma maior exigência de que os políticos sejam aqueles com habilidades de comunicador; as imagens passam a ser um aspecto importante para a escolha de líderes políticos; e temos ainda o uso intensivo de pesquisas de opinião. Inúmeros fatores explicam essas mudanças, mas Manin dá ênfase ao modelo de comunicação centrado na televisão e no rádio associado ao enfraquecimento dos partidos políticos.

(…) Os canais de comunicação política afetam a natureza da relação de representação: os candidatos se comunicam diretamente com seus eleitores através do rádio e da televisão, dispensando a mediação de uma rede de relações partidárias. A era dos ativistas, burocratas de partido ou “chefes políticos” já acabou. Por outro lado, a televisão realça e confere uma intensidade especial à personalidade dos candidatos. De certa maneira, ela faz recordar a natureza face a face da relação de representação que caracterizou a primeira forma de governo representativo (…)

 

Bolsonaro tem hoje mais seguidores que o Estadão

Manin foi criticado por ter considerado quase que a irrelevância dos partidos na organização do jogo político nas “democracias de público”. Anos depois, em 2006, ele publicou uma espécie de adendo, no qual reconheceu que teria ido longe demais quando se referiu aos partidos. A despeito dessa reconsideração, o seu trabalho continua influenciando muitos estudos mundo afora.

O que pensar da “democracia de público” no momento em que a relação entre representantes e representados ganhou novas características com a comunicação via mídias sociais? Quais as consequências desse modelo para o debate público, a agenda política ou o comportamento político?

No início deste mês, por exemplo, a revista The Economist  publicou um levantamento em que mostra que o presidente americano Donald Trump já tem mais seguidores no Twitter que seus adversários políticos e importantes canais de comunicação como CNN, The New York Times ou Fox News.

Nesse cenário, políticos com habilidades de comunicador no mundo digital podem simplesmente dispensar a comunicação mediada pela imprensa porque são hoje um espécie de “homens-mídia”. São habilidosos operadores da gramática desse tipo de comunicação. O “homem-mídia” pode influenciar a agenda ou ainda se sentir legitimado a tomar decisões baseando-se apenas na interação direta com seus seguidores. Suas ideias podem ser disseminadas sem qualquer interferência dos meios tradicionais de comunicação, mobilizando milhões de pessoas. É claro que essa comunicação direta é apenas aparente, já que o Twitter e o Facebook podem interferir no alcance das mensagens, mas o fato é que vivemos uma radicalização do modelo de “democracia de público”.

E no Brasil? Listei o total de seguidores dos pré-candidatos a presidente em 2018 e organizei os mesmos dados para os principais meios de comunicação do país. Com exceção da CBN, cinco meios tradicionais de comunicação estão à frente dos candidatos em número de seguidores. Marina Silva, a candidata mais bem posicionada com 1,8 milhão de seguidores, tem apenas 40% do total da TV Record, e apenas 16% do total registrado na conta da TV Globo. De qualquer maneira, a candidata da Rede pode falar para um número considerável de pessoas que, por sua vez, podem reverberar suas mensagens em outros canais.

 

Total seguidores no Twitter (2)

 

No caso no Facebook, a distribuição é diferente. Embora a liderança continue sendo da TV Globo, seguida da TV Record, o candidato do PSC, Jair Bolsonaro, já tem mais seguidores que o jornal Estado de São Paulo, e se aproxima do Jornal O Globo. Bolsonaro já tem 90% do total de seguidores do diário carioca. Em relação à TV Globo, tem 36% do total de seguidores da emissora, hoje com quase 14 milhões. Novamente. Embora não supere todos os meios tradicionais, como no caso do Trump, Bolsonaro tem uma rede com mais de 4,8 milhões de pessoas que podem fazer a sua mensagem circular, apesar de parte desse contingente ser efeito de bots.

Total seguidores no Twitter (2)

Como os dados de mídias sociais mudam bastante no período, não sabemos como eles estarão quando a campanha eleitoral de fato começar. É provável que tanto os canais tradicionais quanto os candidatos ganhem mais seguidores porque os eleitores estarão buscando mais informações em 2018. Mesmo que a distribuição dessas posições no total de seguidores não mude, o cenário da comunicação sugere novas questões daqui para frente. Listo uma aqui bem intrigante.

Se podem dispensar a mediação dos canais tradicionais de comunicação, estariam os políticos mais próximos da ideia original de representação? Ou seja, com menos gap entre o que pensam os eleitores e o que os candidatos devem fazer? Isso é necessariamente bom? Tendo a achar que não.

Esse modelo cria, na verdade, incentivos a uma espécie de populismo digital, um fenômeno que também poderia ser chamado de trumpismo, com efeitos hoje visíveis na escolha de agendas que tenham mais apelo entre os seguidores, na forma da comunicação por meio de frases de efeito, que possam incentivar o compartilhamento, e também, muitas vezes, na produção de radicalismo político. É claro que pode haver uso equilibrado das mídia sociais, só que o uso equilibrado não parece mobilizar audiências. Esse parece ser o ponto mais preocupante.

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