Duas hipóteses sobre os efeitos das “fake news” numa disputa eleitoral

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Recentemente, Facebook, Twitter e Google assumiram compromisso público de combaterem as notícias falsas que circulam em suas plataformas. O Facebook, com mais de 100 milhões de usuários no Brasil, por exemplo, testa o uso de um botão em que o participante da rede pode ajudar a indicar se determinada publicação é ou não falsa.

A ação desses três grupos vem depois das suspeitas de que as chamadas fake news, como eles gostam de definir, interferiram nas eleições americanas do ano passado, bem como na votação do Brexit, no Reino Unido. É importante observar que ainda não está muito claro qual foi o real impacto das notícias falsas nesses dois casos.

A ênfase no termo fake news, que acabou se popularizando aqui também, esconde um dado fundamental. Primeiro, não há novidade alguma na circulação de notícia falsa; segundo, a relação entre notícia falsa e política não nasce com as mídias sociais. Informação falsa sempre foi usada nas disputas políticas e por diferentes agentes. O que muda ou o que de fato é novo nesse cenário é a velocidade com que uma informação falsa circula, impulsionada pelo compartilhamento em massa feito pelos usuários das mídias sociais.

Como estamos prestes a iniciar um novo processo eleitoral e as notícias falsas então no foco, tenho pensado sobre hipóteses para os seus efeitos numa disputa política no contexto de rápida disseminação. Por dedução, notícia falsa que importa é apenas aquela que viraliza. As inúmeras que circulam nas redes, mas sem alcançar um volume de disseminação, não parecem preocupar muito. Portanto, se a especulação estiver correta, o efeito de uma notícia falsa em uma disputa política é resultado da interação de três variáveis: a) grau de engajamento político dos usuários das mídias sociais, b) momento da decisão política e c) autoproteção do sistema.

A) O engajamento político. Essa variável ajuda a classificar os eleitores que estão nas redes. São basicamente dois grupos. Os engajados em torno de um candidato, partido ou causa e os não-engajados. O primeiro grupo, em menor número, usa intensamente as mídias sociais, participa das discussões, e são ativos na defesa da sua agremiação política, causa ou candidato. Os não-engajados, por sua vez, constituem o maior número de eleitores. Se interessam pouco por informações política e, muitas vezes, só se procuram em saber quem são os candidatos e o que eles pretendem fazer a poucos dias da votação.

A relação engajados e não-engajados é, na verdade, uma relação entre eleitores com crenças fortes e fracas. Os engajados têm um sistema de crença forte. Nesse caso, as informações não estão diretamente vinculadas aos fatos, mas às suas crenças. É como se as crenças antecipassem a interpretação das informações (falsas ou não). Ou seja, as informações servem apenas para reforçar crenças políticas estabelecidas da pessoa ou do seu grupo. Raríssimas vezes o efeito é o de pôr em dúvida essas crenças.

No segundo grupo, os não-engajados, as informações podem produzir efeitos de ativação de crenças, logo, sobre a direção da decisão do eleitor. Nesse grupo, há uma grande chance de o eleitor pensar melhor ao receber uma informação sobre determinado candidato, seja essa informação falsa ou verdadeira.

A relação entre grau de engajamento político e informações é determinante porque hoje, como sabemos, somos todos agentes na disseminação dos conteúdos que nos chegam pelas mídias sociais. Para uma notícia falsa ganhar amplitude, ela depende do grau com que estamos atentos a determinados conteúdos (política) e da nossa disposição para disseminar as informações. Se a disposição tem custo baixíssimo, fruto da facilidade com que podemos distribuir as informações nas mídias sociais, o mesmo não podemos falar da atenção. Ela continua dependente do interesse do eleitor de participar de grupos ou redes que disseminam informações com esses conteúdos. Portanto, é muito mais fácil os engajados serem os disseminadores primários das notícias falsas. Dependendo da magnitude que ela alcance, essas notícias podem chegar também aos não-engajados.

B) Momento da decisão política: essa variável se refere exatamente ao que o próprio nome diz. Ela situa no tempo o ponto em que o eleitor tem acesso a uma informação e terá que tomar uma decisão política. É uma sobreposição entre o tempo de disseminação das informações e momento da decisão política. Pode ser hoje, amanhã ou daqui a alguns meses. Daqui a uma hora, duas ou cinco horas. Se o momento da decisão coincide com o período alta disseminação das notícias falsas, temos o que chamo de “momento crítico”. Há menos tempo para a notícia falsa ser desmentida ou corrigida e, uma vez que atinja eleitores não-engajados, ou melhor, com baixa informação sobre política, pode produzir efeitos sobre a sua decisão.

C) Autocorreção do sistema: essa variável se refere às diversas iniciativas das instituições de não apenas criarem sistemas para reduzir o impacto das notícias falsas, mas também de inocular a dúvida entre os eleitores. Essas iniciativas procuram também a propagação rápida das mídias. A ação sistemática que temos visto de instituições de mídia tradicional e dos novos players (Facebook, Twitter, Google) tem ajudado a propagar a dúvida sobre os conteúdos de fontes desconhecidas. Tem funcionado como uma espécie de pedagogia para o uso das informações que circulam nas mídias sociais.

A ASSOCIAÇÃO DAS TRÊS VARIÁVEIS

A associação dessas três variáveis, num contexto de notícias falsas, ajuda a construirmos modelos sobre seus efeitos políticos-eleitorais. As mídias sociais permitem uma disseminação incrivelmente rápida de informações, sejam elas falsas ou verdadeira. Eleitores engajados tendem a ser agentes importantes nesse processo, mas o impacto no processo de decisão dos engajados e não-engajados é, a meu ver, bem diferente.

O gráfico é uma representação da hipótese que discuto aqui. As mídias sociais, até em função da atuação dos engajados, gera um pico de disseminação de notícias. Se a decisão do eleitor não-engajado que teve acesso a essa informação for no momento desse pico da disseminação, há uma grande chance de o processo de decisão ser perturbado pela informação. Lembrando, estamos falando de eleitores com baixo arsenal de informações políticas e também crenças fracas ou moderadas sobre questões políticas.

não_engajados

A curva cai nas horas seguintes em função da atuação do sistema de autocorreção das informações. Incluiria nesse grupo não apenas as instituições que trabalham no mundo da informação, mas também eleitores engajados que vão procurar atuar para corrigir a informação falsa sobre um tema que conhece bem, ou que ataque o seu candidato. Como essas instituições e grupos operam sempre no momento seguinte, eles não têm como evitar o pico inicial de disseminação das notícias falsas.

No grupo dos eleitores engajados o efeito é diferente. Se a notícia falsa for um ataque a um adversário político, pouco importa se o sistema de autocorreção entre em jogo. Esses eleitores continuarão a disseminar essas informações porque elas, na verdade, reforçam as suas crenças. Portanto, a notícia falsa não é falsa para esse grupo. Ela serve como um combustível para manter o grupo ativo. Essa talvez seja a principal razão do interesse de candidatos e lideranças políticas em disseminarem notícias falsas. Provavelmente, eles vão atuar nesse sentido em 2018, como sempre fizeram, mas essa atividade será delegada a seus apoiadores.

engajados

A separação dos dois modelos, como se sabe, é arbitrária. Eles, na verdade, operam simultaneamente, como o gráfico abaixo. Nesse cenário, embora ocorra a queda da disseminação de uma notícia falsa, em função do sistema de autocorreção, sua disseminação entre os engajados continua ativa. Ela só cai em um momento bem posterior, quando as agendas, temas e/ou pessoas saem da agenda política. Perceba que o ponto importante do efeito das notícias falsas é justamento o momento de pico da disseminação, caso ela coincida com o momento de uma decisão política dos eleitores. Esse pico, a meu ver, tende a ser nas horas ou dias inicias. Por isso que é tão comum surgirem notícias falsas faltando poucos dias ou horas para o dia da votação.

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