Como o Facebook espelha a distribuição das intenções de voto de Lula e Bolsonaro

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A primeira pesquisa Ibope de intenção de voto para presidente,  realizada entre os dias 18 e 22 de outubro, trouxe um dado interessante. O instituto perguntou aos entrevistados se eles acessam a internet. Embora o levantamento não deixe claro a frequência com que os eleitores afirmam usar a internet, os dados sinalizam uma questão que partidos, lideranças políticas e os institutos de pesquisa passaram a considerar de maneira mais explícita nessa eleição: a relação entre uso da internet, apontada como uma potente fonte alternativa de informação, e o comportamento eleitoral.

Sabemos que pesquisas sobre intenção de voto, neste momento, são mais precisas para demonstrar a popularidade de alguns competidores, especialmente aqueles que estão em pré-campanha, como Lula, Bolsonaro e Ciro Gomes, do que uma preferência eleitoral de fato. Há muito tempo ainda até o início oficial da disputa e muita coisa ainda pode acontecer, inclusive a troca de candidatos no páreo.

Pelo Ibope, o ex-presidente Lula (PT) aparece com cerca de 35% de intenções de voto, enquanto o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) varia entre entre 13% e 15%. Na terceira posição vem a ex-ministra Marina Silva (Rede), com 11%, seguida por Geraldo Alckmin, com 7%. Os percentuais mudam dependendo do cenário testado pelo instituto.

No cenário com esses candidatos, o cruzamento entre preferência eleitoral e acesso à internet mostra um comportamento bem diferente entre os eleitores de Lula e Bolsonaro. O candidato do PT vai melhor entre os que afirmam não acessar a internet, enquanto o deputado federal tem desempenho melhor entre os eleitores com acesso à rede. Essa característica, na verdade, esconde uma série de outras variáveis, como diferença de renda, escolaridade, entre outras, que estão associadas ao uso da internet no Brasil.

Com os dados do Ibope, fiz um teste. No Brasil, cerca de 103 milhões de brasileiros estão conectados ao Facebook. É claro que nesse universo há muitas crianças e jovens que não votam, mas são números que sinalizam o potencial dessa plataforma para disseminar mensagem política. Os eleitores mais engajados utilizam a rede para encontrar e disseminar informações sobre os candidatos. Ter uma rede ativa e grande é um dado estratégico importante para qualquer candidato. A dúvida é: será que o peso das páginas dos candidatos no Facebook espelha a distribuição das intenções de votos?

Painel 1 (15)

O cenário usado nesse teste levou em consideração nove candidatos listados pelo Ibope. Juntos, suas páginas no Facebook somam mais de 13 milhões de seguidores. Com esse dado, calculei a dimensão de cada página, segundo o número de seguidores. Essa é, evidentemente, uma análise exploratória, ou seja, uma descrição bem geral dos dados, não sendo possível fazer afirmações mais precisas sobre a associação direta entre intenção de voto e usuários no FB.

Para interpretar o gráfico abaixo, observe as linhas pontilhadas. Na horizontal, a linha apresenta o percentual médio da participação das páginas no total de 13 milhões de seguidores dos candidatos. Já a linha pontilhada na vertical mostra onde se encontra o percentual médio de intenção de voto dos candidatos considerados na análise.  Lula, Bolsonaro e também Marina Silva estão acima da média no total de seguidores dos demais candidatos nas suas páginas no FB, assim como apresentam intenções de voto também acima da média.

 

Painel 2 (5)

 

No canto inferior à esquerda estão os candidatos com baixa participação no total de seguidores, assim como baixo percentual de intenção de votos. Esses dados, porém, precisam ser lidos com cautela. Como é possível observar, Bolsonaro tem a maior participação na rede entre os candidatos considerados, no entanto, sua intenção de voto está bem próximo da média geral (9%). O deputado federal aparece com 15% das preferência, já a sua página representa mais de 35% da rede. Ou seja, é possível que o FB espelhe mais a popularidade de um candidato do que sua intenção de voto real.

Esse dado demonstra exatamente o que foi visto no primeiro gráfico. Bolsonaro vai melhor entre os usuários da internet, mas ele ainda não conseguiu transferir esse potencial para a vida real. Sequer é possível dizer que conseguirá.

Marina Silva e Lula, por sua vez, têm uma relação mais próxima entre total de seguidores no FB e suas intenções de voto. Lula tem 35% de preferência eleitoral e a sua página no FB representa cerca de 23% da rede formada entre os candidatos. O caso de Lula é o inverso de Bolsonaro. Ele vai melhor na vida fora das redes, mas esse desempenho não foi transferido integralmente para a sua página no FB. A candidata da Rede tem 11% no Ibope e sua rede representa 17% entre as páginas dos candidatos considerados aqui. É a melhor relação entre o FB e intenção de votos.

É possível então usarmos o FB para estimar o desempenho dos candidatos? Dificilmente. Há um viés nesses dados. Os casos de Bolsonaro e Lula demonstram que a vida real tem outras dinâmicas, outros fatores que não se associam necessariamente com a dimensão das páginas desses candidatos no Facebook. A questão que fica em aberto e que poderemos acompanhar nos próximos meses é saber se a intenção de voto para Lula ficará mais próximo da participação da sua página no FB, assim como verificar se a participação da página de Bolsonaro atrairá eleitores da vida real dispostos a votar no deputado federal.  Seria a troca de admiradores por eleitores de fato.

 

 

 

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