Você sabe o que as mídias sociais pensam das eleições no Brasil?

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A premissa de que a informação é um elemento importante para a nossa tomada de decisão política sempre mobilizou o interesse de pesquisadores das ciências sociais. Quais os custos cognitivos, financeiros ou mesmo de tempo para obter as informações necessárias para tomar uma decisão, por exemplo, durante uma eleição? Quais os efeitos das agendas dos meios ou mesmo do enquadramento das informações? Qual o papel das emoções nesse processo? São inúmeras as perguntas.

Num cenário em que a comunicação via internet ocupa boa parte do tempo dos cidadãos, os usos que fazemos desse meio também despertam preocupação. Os mais otimistas vêm aí uma possibilidade de democratizar o acesso à informação, ampliando os canais através dos quais os cidadãos podem pressionar o campo político. Já os mais pessimistas têm identificado impactos negativos, como o aumento da intolerância, da radicalização política, entre outros efeitos.

A preocupação sobre os efeitos da comunicação ocorre muito em função da centralidade das mídias sociais nas nossas vidas. O que o Facebook, Twitter, Instagram e até mesmo Google fazem importa. Decisões que impliquem mudanças na nossa forma de acessar e utilizar os conteúdos desses canais deixaram de ser algo meramente de natureza privada. E aqui esbarramos em inúmeros problemas, o principal deles, a pouca transparência sobre como esses meios direcionam os fluxos de informação nos seus canais.

Em reportagem recente, o The Guardian revelou que o Facebook vem fazendo uma experiência no Sri Lanka, Guatemala, Bolívia, Camboja, Sérvia e Eslováquia. A mídia social passou a reduzir o volume de posts que trazem links externos, ou seja, de fontes de informações como jornais, TVs e revistas. Em resumo, você vê na sua timeline menos posts que utilizam esses links e mais posts de conteúdo pessoal. A dependência dos veículos de imprensa para distribuir informação via Facebook é tamanha que um dos jornais da Guatemala chegou a registrar perda de até 66% do tráfego do seu site após o início do experimento.

Muitos poderiam argumentar que o Facebook é uma empresa privada, que o que ela faz é única e exclusivamente problema seu e dos usuários que decidem participar da rede. Esse argumento falha no principal. Ele não tem uma resposta para o impacto desse modelo de comunicação sobre a qualidade da democracia porque está amparado apenas numa visão consumidor-produto. A questão é que essa relação, dada a magnitude que ela tomou, produz hoje efeitos para além de escolhas individuais.

Em outros termos. A centralidade das mídias sociais transfere não apenas recursos financeiros e poder para as instituições que administram essas redes, mas também uma enorme responsabilidade social. O que eles fazem ou deixam de fazer com relação ao modo como obtemos informações produz efeitos para além de uma relação consumidor-produto, porque essas redes lidam com um bem que é público. Não é do Facebook ou do Twitter.

Esse é o debate que os governos e a sociedade precisam colocar na mesa. As mídias sociais não são apenas canais de entretenimento, eles são meios através dos quais muitos cidadãos têm acesso a informações, expõem suas ideias, criam seus grupos de discussão, estabelecem laços políticos e sociais. Esses canais são a televisão do século XXI mas com uma característica única. Estão em todos os lugares, permitem a interação em duas vias, mas o seu comando não está sob o ordenamento jurídico dos países onde os eleitores dedicam atenção a essas redes.

Isso quer dizer que os fluxos de informacionais nas mídias sociais, fruto da política desses meios, não atendem necessariamente as regras locais dos países. Estamos falando do impacto desses fluxos sobre as escolhas de milhares de eleitores, muitos deles pessoas que sequer utilizam outras fontes de informação, sem saber exatamente como, por que e de que maneira essas empresas tomam decisões que afetam o nosso direito de se informar e, em último caso, impactam a qualidade da nossa escolha eleitoral.

A recente reforma política aprovada no Brasil abriu mais espaço para o uso que os partidos e candidatos poderão fazer das redes sociais. O campo político, assim como os veículos de imprensa, entendeu que esse é um canal importante por meio do qual os eleitores, ou uma gigante parte dele, vão recorrer para tomar uma decisão política. Mas alguém se perguntou o que o comando dessas redes pensa disso?

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