Pesquisa analisa o que mudou com o Jornalismo de Dados

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Acaba de ser publicado no periódico Journalism um interessante estudo sobre a aplicação de Jornalismo de Dados nos últimos quatro anos.  “Data-driven reporting:
An on-going (r)evolution?” analisou 225 projetos que concorreram no prêmio mundial de Jornalismo de Dados, no período de 2013 a 2016, com o objetivo de verificar o que afinal essa prática tem feito e em que medida isso tem ajudado mudar o jornalismo. (Este post é inspirado em uma publicação da NiemanLab que abordou os resultados da pesquisa (Aqui).

As conclusões dos pesquisadores alemães Wiebke Loosen, Julius Reimer e Fenja de Silva-Schmidt não são muito otimistas. Se levarmos em conta que o JD prometia mudar consistentemente a maneira como as redações trabalhavam, os resultados sugerem que essas mudanças ainda são bastante tímidas.

No fim dos anos 2000, inúmeros jornalistas em todo mudo acreditavam que o Jornalismo de Dados iria revolucionar a cultura da produção jornalística em função de um uso crescente da tecnologia para obter e processar dados; capacidade de extrair um grande volume de dados da web para além das fontes oficiais; além do uso de visualizações cada vez mais sofisticadas e com poder de mobilizar audiências. No fundo, acreditava-se que o Jornalismo de Dados afetaria a cultura da produção jornalística que vigorava até então.

Algumas conclusões gerais dos pesquisadores alemães coincidem com os resultados de estudo que participei em 2015 no Brasil e que tinha o objetivo justamente de saber a) como poderíamos definir o Jornalismo de Dados praticado no país; b) os conteúdos das reportagens e c) o tipo de dado utilizado. Os resultados foram publicados na revista Fronteiras, da Unisinos, no ano passado. Disponível aqui.

O que diz “Data-driven reporting: An on-going (r)revolution”?:

  1. Jornalismo de Dados ainda é depende da participação de muitos indivíduos para que seja realizado;
  2. Cerca de 43% dos candidatos e 37% dos trabalhos foram realizados por equipes de jornais impresso;
  3. Mais de 48% das publicações tinham como conteúdo principal a política;
  4. Aproximadamente 52% das reportagens tinham uma postura mais crítica à atuação de instituições públicas. Esse percentual subiu no período analisado;
  5. A maioria das publicações ainda depende de dados de instituições públicas. Nesse item, os pesquisadores descobriram ainda que, apesar de o JD pregar que a transparência é um valor máximo, as reportagens não esclareciam onde e como obtiveram os dados das suas publicações;
  6. As imagens estáticas e gráficos ainda são usadas com mais frequência;
  7. Embora a interatividade seja um critério de qualidade usada por muitos jornalistas de dados, os pesquisadores concluíram que a interatividade com algum grau de sofisticação ainda é rara.

 

Ainda é cedo?

Duas considerações sobre o estudo “Data-driven reporting: An on-going (r)revolution?”. A primeira é que os dados utilizados na pesquisa são de um prêmio realizado por organizações sediadas nos Estados Unidos e Europa, com custos elevados de inscrição para quem se interessa em participar. Ou seja, boa parte dos trabalhos vem de empresas jornalísticas tradicionais não só porque elas ainda têm mão-de-obra para deslocar para realizar esses trabalhos, como também recursos financeiros para aplicar nesses tipos de projeto. Os resultados, portanto, não poderiam ser diferente.

Tanto os trabalhos analisados pelos pesquisadores alemães, como aqueles que utilizamos no nosso estudo, por outro lado, indicam que as redações tradicionais ainda têm força para investir em um volume maior de reportagens com o uso de dados. Não acredito em revolução, como se imaginava até então, mas a cultura do uso de dados será crescente não em função do Jornalismo de Dados, mas em função do ecossistema da produção de notícias. Nesse caso, o impacto é crescente e generalizado. Talvez o período utilizado na pesquisa seja curto demais para detectar mudanças em uma cultura centenária do “fazer jornalismo”.

Chama atenção, por fim, o grande volume de publicações que utilizam o tema “política”. Aqui identificamos essa tendência em função do calendário eleitoral. Como o TSE disponibiliza muitos dados, os jornais ampliam suas publicações. É interessante observar ainda que, tanto aqui como lá fora, o volume de dados usado nas reportagens obtidas de instituições externas, ou seja, dados já processados. Ainda não avançamos ou avançamos muito pouco na nossa capacidade de extrair autonomamente dados da web. E isso, a meu ver, atinge tanto instituições tradicionais, quanto aquelas que se autodenominam independentes.

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