Conseguirá a democracia sobreviver à internet?

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by John Pemble

O título deste post repete uma pergunta feita pelo professor da Escola de Direito de Stanford, Nathaniel Persily. Em artigo publicado na última edição da revista “Democracy”, já disponível em português, Persily analisa a campanha eleitoral americana de 2016, procurando discutir alguns dos efeitos nocivos do uso da web no processo de decisão dos eleitores. O foco é, obviamente, como Donald Trump conseguiu agendar o debate eleitoral, dispensando muitas vezes o papel das instituições tradicionais de mediação. Jornais e redes de TV, na visão de Persily, serviram mais como disseminadores da agenda imposta por Trump do que veículos com capacidade de filtrar e se contrapor ao discurso radical e recheado de mentiras apresentado pelo republicano. Trump, por sua vez, foi hábil no uso de uma linguagem incendiária na redes sociais como estratégia para engajar os eleitores, independentemente dos demais canais.

“O que o sucesso da campanha de Trump demonstrou é que a capacidade de viralizar é atualmente a principal moeda eleitoral. Aqueles candidatos e estratégias capazes de gerar “compartilhamentos”, “curtidas” e “seguidores” possuem uma vantagem sobre os demais” (Persily, 2017, p. 37)

O professor de Stanford não é exatamente um pessimista, mas os exemplos que apresenta da relação campanha eleitoral e tecnologia da comunicação apontam quase todos para os seus efeitos negativos para democracia. Persily sabe que há um terceiro sujeito nessa relação que condiciona seus resultados. Eleitores e candidatos precisam estar dispostos a usar a tecnologia para determinado fim. Poderíamos lembrar, por exemplo, de vários casos em que cidadãos, através da internet, vêm buscando propostas e soluções para ajudar a qualificar a nossa relação com o campo político. O engajamento online em discussões de temas de interesse público, a pressão sobre as casas legislativas. Há muitos exemplos que indicam como a relação representante-representado passa por mudanças, algumas delas com efeitos positivos.

Seja como for, o artigo de Persily é um interessante ponto de partida para pensarmos os efeitos dos usos que fazemos das novas tecnologias e seu impacto sobre a qualidade da democracia. Há um otimismo exagerado, é verdade. Mas há também pessimismo, em especial, sobre o que poderá ser da democracia cada vez mais digital em um futuro próximo. Essas diferenças são ao sabor do freguês. As campanhas de Barack Obama, em 2008 e 2012, costumam ser lembradas como exemplos de como a internet pode ser um instrumento poderoso para promover mudanças. Menos de uma década depois, pesquisadores e cientistas políticos americanos discutem os efeitos nocivos da web, agora tendo como exemplo a campanha de Trump.

Em 2018, campanha digital no Brasil, um alerta

Embora seja um país com características bastante distintas, o Brasil se prepara para mais uma campanha eleitoral para presidente em 2018, com o seguinte cenário: mudanças nas regras eleitorais para permitir um maior uso das redes sociais por parte do campo político; crise dos meios tradicionais de comunicação; descrença política generalizada; discurso político radicalizado e atores políticos tradicionais abatidos pela crise iniciada desde 2014. Que efeitos poderão surgir dessa associação de fatores?

Longe de afirmar que o caso americano seja um presságio do que teremos por aqui. Vale lembrar que nem mesmo os analistas americanos têm clareza sobre quais foram os efeitos do tipo de campanha digital adotada por Trump. Mas uma coisa parece mais ou menos consensual, o candidato republicano conseguiu fazer circular a sua mensagem e esse pode ser um indício do seu impacto sobre a decisão dos republicanos de irem votar. Entre os pontos apresentados por Persily, esses, a meu ver, merecem atenção por aqui.

Mobilização, hipersegmentação e arrecadação

– “Por meio de uma comunicação web tradicional,  promoção de eventos, novos aplicativos, anúncios nativos (nos quais anúncios web ganham a aparência de artigos postados) e novos usos de redes sociais, a campanha (Trump) lançou quatro mil diferentes campanhas publicitárias e obteve 1,4 bilhão de impressões web (anúncios e outras comunicações visíveis a usuários individuais)”.

– “Pelas contas da Cambridge Analytica, a campanha focou em 13,5 milhões de eleitores indecisos em dezesseis estados com disputa acirrada, encontrando eleitores de Trump escondidos, especialmente na região centro-oeste”.

– “No dia do pleito, Trump tinha treze milhões de seguidores no Twitter, comparado com os dez milhões de Hillary Clinton.  Cada tuíte da conta de Trump ou da conta de um de seus aliados oficiais era amplificado por meio de retuítes de uma horda de seguidores. Em média, durante um período de três semanas em meados de 2016, os tuítes de Trump eram retuitados mais de três vezes mais do que os de Hillary.”

Linguagem incendiária e notícias falsas na rede

– “Ele (Trump) também percebeu que o uso de linguagem incendiária atraía a atenção da imprensa ou mudava a narrativa. Juntas, essas estratégias lhe permitiram arrecadar o equivalente a cerca de US$ 2 bilhões em publicidade durante as primárias e, provavelmente, uma cifra similar durante a campanha”.

– “O poder das notícias falsas (se houver) é determinado pela capacidade que a mentira que elas propagam tem de viralizar, pela velocidade na qual são disseminadas sem o devido contraditório e, consequentemente, por quantas pessoas recebem e acreditam na mentira. Como acontece com outras informações ou boatos no mundo offline, muitos fatores podem levar à popularidade de uma notícia: seu valor como entretenimento, grau de novidade e de apelação etc.

– “Nos últimos três meses de campanha, as vinte notícias eleitorais falsas mais populares haviam gerado mais engajamento do que os vinte artigos mais populares dos veículos tradicionais de comunicação”.

– “O BuzzFeed analisou seis das páginas do Facebook mais partidárias, três à direita e três à esquerda. Descobriu que, nos sites de direita, “38% de todos os posts eram ou uma mistura de conteúdos verdadeiros e falsos ou principalmente falsos, comparado com 19% dos posts de três páginas partidárias de esquerda”.

– “O BuzzFeed também descobriu que “as 20 notícias eleitorais mais populares de sites de boato e blogs hiperpartidários geraram 8.711.000 compartilhamentos, curtidas e comentários no Facebook”, mais do que um conjunto comparável de notícias dos principais veículos tradicionais de mídia”.

Uso de Bots para mobilizar eleitores

– “Durante a campanha de 2016, a presença constante de bots para disseminar propaganda política e notícias falsas parece ter atingido novos patamares. Um estudo descobriu que, entre 16 de setembro e 21 de outubro de 2016, os bots produziram cerca de um quinto de todos os tuítes relacionados às eleições americanas. Em todos os três debates presidenciais, bots pró-Trump do Twitter geraram cerca de quatro vezes mais tuítes do que os bots pró-Clinton. Durante o último debate, em especial, esse número chegou a ser sete vezes maior”

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